domingo, 21 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Autonomia ou hegemonia?
Autonomia ou hegemonia?
A resistência ao neoliberalismo, especialmente ao longo da década de 90, foi protagonizada particularmente pelos movimentos sociais, seja pela renúncia de muitas forças partidárias a desempenhar esse papel, seja porque os efeitos mais cruéis do neoliberalismo se dão exatamente no plano social. Formulou-se nesse momento a expressão “autonomia dos movimentos sociais”, com o sentido de lutar contra a subordinação a forças políticas e lutar pelo predomínio das forças que mais diretamente expressavam os interesses populares.
Mas que significado pode ter a autonomia do social? Autonomia diante do quê? O “outro mundo possível” pode ser construído a partir da “autonomia do social”?
Essa autonomia aponta para a centralidade da “sociedade civil”, para a contraposição ao Estado, à política, aos partidos, ao poder – conforme ficou consagrado na Carta do Forum Social Mundial. No limite, se identifica com duas versões teóricas: a de Toni Negri, por um lado, a de John Holloway, por outro, ambas tendo em comum a contraposição ao Estado, promovendo, em contraposição, a esfera social.
Essa concepção primou durante a década de 90 quando, colocadas na defensiva, as forças anti-neoliberais se concentraram no plano social, desde onde desataram suas principais mobilizações. A partir do momento que se evidenciou o desgaste precoce do modelo neoliberal – particularmente depois das crises nas três maiores economias do continente, México, Brasil e Argentina -, a luta passou a outra fase: a de construção de alternativas e a de disputa por uma nova direção política.
Foram se sucedendo assim as eleições de presidentes, como rejeição dos governos neoliberais, em 8 países do continente – já com três reeleições -, marcando a fase de transferência da esfera predominante para a política.
Quem não entendeu essa nova fase, deixou de captar o andamento da luta anti-neoliberal. Quem persistiu na “autonomia dos movimentos sociais”, ficou relegado ao corporativismo, opondo autonomia a hegemonia e renunciando à luta pela construção do “outro mundo possível”, que passa pela conquista de governos, para afirmar direitos – dado que o neoliberalismo é uma máquina de expropriação de direitos. Além de que outros elementos essenciais do anti-neoliberalismo, como a regulação da circulação do capital financeiro, a recuperação da capacidade reguladora do Estado, o freio aos processos de privatização, o avanço nos processos de integração regional, entre outros, supõe ações governamentais.
Transformar a autonomia numa categoria absoluta – em qualquer esfera: social, política, econômica ou ideológica – significa não captar o peso das outras instâncias e entender a política como uma esfera entre outros e não como a síntese delas todas. A avaliação dos governos tem que ser feita em função da natureza do seu programa e da sua capacidade de realização, no caso do nosso continente, no período atual, pela ação contra o modelo neoliberal e a favor dos processos de integração regional e contra os TLCs.
Os movimentos sociais são um componente, muito importante, mas não o único, do campo popular ou campo da esquerda, como se queira chamar, ao qual pertencem também forças políticas, governos, locais, estaduais ou nacionais. Nunca os movimentos sociais, autonomamente, dirigiram ou dirigem um processo de transformações na sociedade. Para fazê-lo, tiveram que, como na Bolívia, construir um partido – nesse caso, o MAS - isto é, restabelecer, de uma nova forma, as relações com a esfera política, para poder construir uma hegemonia alternativa.
A autonomia que faz sentido na luta emancipatória é aquela que se opõe à subordinação dos interesses populares e não a que se opõe à hegemonia, que articula obrigatoriamente as esferas econômica, social e ideológica, no plano político. A passagem da defensiva – concentrada na resistência social – à luta por uma nova hegemonia, caracteriza a década atual no continente, que se transformou, de laboratório de experiências neoliberais, no elo mais frágil da cadeia neoliberal no mundo.
Postado por Emir Sader às 09:15
domingo, 23 de novembro de 2008
A esquerda brasileira e as eleições municipais de 2008
Como em qualquer período pós-eleitoral, mal termina a contagem dos votos e imediatamente vemos multiplicarem-se análises e “balanços” que, em sua maioria, buscam apressadamente decretar – com exatidão matemática! – os vencedores e os derrotados das urnas. Entram em campo uma infinidade de analistas, cientistas políticos, dirigentes partidários e jornalistas, quase sempre inclinados a organizar seus balanços à luz do “placar” oposição x governo. Mesmo sem a pretensão de desconsiderar a importância deste tipo de análise, optamos, nas linhas que se seguem, por um esforço distinto: nos interessa aqui compreender o significado destas eleições para o futuro dos partidos de esquerda no Brasil.
Pretende-se, portanto, neste breve artigo, não apenas contabilizar o resultado imediato das urnas, mas principalmente, identificar quais “tendências” foram determinantes no comportamento dos partidos de esquerda para, a partir daí, projetar alguns cenários possíveis para o próximo período.
Para facilitar a compreensão das idéias que serão apresentadas a seguir, optamos por organizar o presente artigo em três momentos: no primeiro buscar-se-á avaliar o resultado obtido pelo PT, considerando a ainda recente crise vivida pelo partido e os desafios para o futuro suscitados nestas eleições. No segundo momento, nos debruçaremos sobre o desempenho dos partidos que compuseram o “bloco de esquerda” – PC do B, PSB, PDT – visando, principalmente, analisar se a proposta de organização deste “bloco” sai fortalecida ou fragilizada destas eleições. E por fim, analisaremos o comportamento da esquerda radical, representada pelo PSOL, tentando compreender que indicações podem ser extraídas de sua atuação durante o processo eleitoral.
1. O desastre faltou ao encontro: a reafirmação do PT
“O PT já acabou. É um cadáver insepulto. (...) Quem decidiu a eleição de 2006 foram os pobres” Luís Mir, 50 anos, jornalista e historiador espanhol em entrevista à revista Época em 11/05/2007.
O que chama a atenção na afirmação acima, além da veemência do autor, é o período no qual foi formulada. Afinal, mesmo após a reeleição de Lula, Luis Mir e diversos outros analistas insistiram em afirmar que Lula havia sido reeleito “apesar do PT” e que o partido havia se transformado num fardo pesado para o presidente.
Uma das principais conclusões que podemos tirar destas eleições municipais parece óbvia, mas não o era há dois anos. A reafirmação do PT enquanto força política estável e decisiva no quadro político-partidário brasileiro, embora pareça “natural”, não deve ser menosprezada. Afinal, nunca é demais recordar o entusiasmo arquejante de um dos principais postilhões da ditadura, que prometia livrar-se desta “raça” por 30 anos. Trata-se, portanto, de um resultado importantíssimo para o futuro da democracia em nosso país. Bem distante do futuro catastrófico que setores conservadores da grande imprensa anteciparam-se em anunciar após a crise de 2005, o PT enfrenta sua segunda eleição “pós-crise” sem expressar nenhuma evidência de que tenha tornado-se um “cadáver político”, ancorado no prestígio do Presidente Lula. A força de sua maior liderança é inquestionável, porém, o PT não se arrasta à sombra de Lula e tem totais condições de afirmar seu protagonismo no debate sobre a sucessão presidencial de 2010.
Aliás, alguns setores da mídia afirmam agora que a transferência de votos do presidente Lula para o PT foi limitada. Ao fazê-lo, porém, deixam de concluir seu raciocínio e reconhecer, então, que o PT foi o grande responsável por sua própria votação. A insistência destes setores em decretar uma suposta derrota do PT nestas eleições beira a obsessão. Pretendem, novamente, decretar a “crise” ou a “falência” do PT, mesmo diante do aumento de 36% no número de prefeituras governadas pelo partido ou das 22 vitórias entre as 79 cidades com mais de 200 mil habitantes.
Entretanto, mais importante do que refutar a argumentação da direita é verificar se o PT, na condição de principal partido de esquerda no Brasil e líder da coalizão que governa o país, demonstrou nestas eleições capacidade de prosseguir liderando este processo que pretendemos denominar de “revolução democrática”.
No que se refere à sua política de alianças, o partido demonstrou um desempenho contraditório. Esteve isolado, ou parcialmente isolado, em disputas importantíssimas, como as de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Porém, foi capaz de demonstrar capacidade de aglutinação, maturidade e coerência programática para montar grandes e vitoriosas coalizões em capitais como Recife, Vitória, Fortaleza e grandes cidades como Guarulhos/SP e Canoas/RS. De forma bastante resumida, poderíamos dizer que naquelas cidades nas quais foi capaz de organizar alianças amplas, coerentes com a perspectiva de um partido que governa o país, o PT saiu-se vitorioso, ao passo que nos locais nos quais esteve isolado, o partido sofreu duras derrotas.
Em relação ao conteúdo programático apresentado pelo partido, fica evidente que há uma importante equação a ser resolvida nos próximos anos: o partido ainda não encontrou um discurso adequado à nova realidade social do país, fruto dos seis anos de governo Lula. A “nova classe média”, em especial aquela localizada nos grandes centros urbanos, recebe com grande apatia o discurso centrado na mera defesa das conquistas sociais obtidas nos últimos anos. Fica cada vez mais evidente que, em 2010, não será suficiente para o candidato do PT simplesmente “defender as políticas sociais” do governo Lula, até porque tudo indica que nenhum outro candidato terá coragem de apresentar um programa de “revisão” de iniciativas como o Bolsa Família, por exemplo. A manutenção da agenda social iniciada no governo Lula tende a se transformar no grande consenso do debate sucessório de 2010. Ao PT caberá apresentar um programa consistente de aprofundamento da Revolução Democrática, que seja capaz de mobilizar os setores médios da sociedade, ao mesmo tempo em que mantenha e aprofunde os laços de nosso projeto com os mais pobres.
Ficou evidente ainda que nossa abordagem acerca das administrações municipais, por todos nós conhecida como “o modo petista de governar”, carece de profundas atualizações, capazes de agregar ao nosso discurso sobre as cidades uma visão integrada de desenvolvimento local, que seja capaz de organizar cadeias produtivas regionais e articulá-las ao mercado de consumo de massas que vem consolidando-se no Brasil nos últimos anos. Estas são atualizações ainda pendentes e decisivas para que o partido lidere uma coalizão de centro-esquerda que dê continuidade ao projeto de nação iniciado pelo atual governo.
2. O desempenho de PCdoB, PDT e PSB e o futuro do “bloco de esquerda”
O PCdoB sai fortalecido das eleições. Multiplicou por quatro o número de prefeituras que governa - de 10 para 41 - somando um eleitorado de 2,1 milhões de habitantes. Além disto, duplicou sua votação majoritária em relação a 2004, alcançando 1.728.000 votos. No entanto, o partido poderia – e esperava – ter obtido um resultado ainda melhor. A boa projeção pré-eleitoral de algumas de suas candidaturas em diversas capitais (Rio de Janeiro, São Luís, Porto Alegre, Belo Horizonte) sinalizava um resultado político extraordinário. Mas a dificuldade de aglutinação de algumas dessas candidaturas e o distanciamento em relação ao PT em algumas cidades foram decisivos para que o cenário excelente não se concretizasse. Talvez, uma das conclusões mais importantes da atuação dos comunistas nas eleições tenha sido a verificação de que seus melhores resultados se deram em municípios nos quais a relação com o PT é mais profunda, como nos casos de Aracaju e Olinda. Fica, portanto, a dúvida se a aposta na construção do “bloco de esquerda” trouxe, ou não, resultados positivos para o partido em termos eleitorais.
O PDT encerra as eleições municipais como 6° maior partido do país. O partido elegeu 343 prefeitos e 3.509 vereadores. Os trabalhistas obtiveram um crescimento expressivo em relação às eleições de 2004. Ao que tudo indica, o PDT beneficiou-se do excelente nível de aprovação do governo federal. E a mudança de postura do partido no segundo mandato do presidente Lula foi decisiva para o sucesso eleitoral. Em algumas cidades, o PDT foi o principal entrave para a unificação do “bloco de esquerda”, o que nos leva a crer que a opção do partido em compor, ou não, chapas com PSB e PCdoB nestas eleições esteve sempre pautada por conveniências locais. No Rio de Janeiro, por exemplo, o partido insistiu na frágil candidatura de Paulo Ramos, recusando-se a compor a chapa encabeçada por Jandira Feghali do PCdoB, bem melhor posicionada nas pesquisas de intenção de voto. Em outras ocasiões, o PDT impossibilitou a unificação do “bloco” em torno de candidaturas petistas, como foi o caso de Fortaleza, onde PCd B e PSB compuseram a chapa encabeçada pela atual prefeita do PT.
O PSB registrou um saldo extremamente positivo. O partido obteve um crescimento real de 79,77%, elegendo 311 prefeitos. Alem disto, aumentou de 1.879 para 2.964 o número de vereadores eleitos. Este crescimento foi impulsionado pelo resultado do partido no Nordeste, região na qual saiu como 2º maior partido. Conquistou cidades importantes como Belo Horizonte e João Pessoa, muito embora a relação entre Márcio Lacerda (prefeito eleito de BH) e a direção do partido ainda seja um enigma. O PSB cresce, mas não o suficiente para alavancar a candidatura de Ciro Gomes. Pelo contrário, à exceção da região Nordeste, a presença de Ciro nas eleições foi bastante tímida.
O desempenho destes três partidos nos possibilita concluir que: 1. Todos saíram beneficiados por comporem a base de sustentação política do governo Lula, e obtiveram importantes avanços eleitorais; 2. Os três partidos condicionaram a composição de chapas unitárias do “bloco” a seus interesses locais, explicitando seu caráter de frente eminentemente parlamentar e não-orgânica; 3. Os três partidos, apesar das dificuldades iniciais, acabaram realizando importantes composições com o PT em diversos municípios, o que dinamitou a pretensão de alguns dirigentes em isolar o PT através da consolidação do bloco e da candidatura de Ciro Gomes como alternativa, dentro da base governista, à sucessão de 2010; 4. Por fim, Ciro Gomes sai das eleições municipais bem mais enfraquecido do que entrou. O próprio desempenho do “bloco”, com sua evidente dispersão, dificultou enormemente suas pretensões e, não por acaso, o deputado do PSB já sinaliza abertamente sua disposição em compor uma chapa encabeçada por outro partido, na condição de candidato à vice-presidente.
3. Psol caminha para tornar se partido integrado à ordem institucional do país
Um fato positivo destas eleições foi a integração do PSOL – ou, pelo menos, de uma parcela deste partido – ao quadro político nacional, na condição de partido estável, democrático, que ocupa um determinado espaço à esquerda em nosso arranjo partidário, e demonstra um inegável amadurecimento político expresso em sua política de alianças.
Afinal, como bem “denuncia” o PSTU em seu site, dos 25 vereadores eleitos pelo PSOL, 15 obtiveram seus mandatos através de coligações com partidos de esquerda e de centro (ou no linguajar do PSTU, “partidos burgueses”).
O caso de Porto Alegre é emblemático. O PSOL naquela cidade não apenas se coligou com o Partido Verde – PV – como também apresentou nas eleições um programa de governo que dialogou com o conjunto da cidade, inclusive com setores produtivos locais, reposicionando o partido no município. O PSOL transitou de uma postura meramente demarcatória para uma outra, que assume a perspectiva de governar dentro da atual ordem institucional do país, num processo semelhante ao vivenciado pelo PT no inicio da década de oitenta.
Em diversas cidades, o PSOL demonstrou maturidade ao posicionar-se no segundo turno de forma coerente, apoiando candidaturas petistas contra oligarquias regionais representadas, especialmente, pelo PSDB e pelo DEM.
Obviamente, este é um processo inconcluso que ainda será tema de calorosos debates no interior deste partido. No entanto, é forçoso reconhecer a relevância deste movimento em direção à institucionalidade democrática e constitucional do país desta parcela da esquerda. Ganha a democracia e a esquerda ao incorporar em seu espectro eleitoral uma força política com razoável incidência sobre funcionalismo público, que poderá ser um ator de peso no embate eleitoral de 2010. Afinal, o debate acerca do funcionamento e da extensão dos serviços prestados pelo Estado brasileiro deve estar no centro de nossa próxima disputa eleitoral. E o eleitorado mobilizado por uma eventual candidatura do PSOL em 2010 pode ser decisivo no embate com as forças neoliberais. As recentes mobilizações de servidores públicos em Minas e em São Paulo são demonstrações eloqüentes do perfil das administrações tucanas e de sua relação com o funcionalismo público. Este segmento pode ser um pólo importantíssimo de defesa das conquistas obtidas pelos dois mandatos do presidente Lula, que reestruturou e assegurou conquistas para várias categorias do setor público.
Conclusão
Este artigo não teve a pretensão de responder a todo o vasto conjunto de questões que dizem respeito ao futuro da esquerda no Brasil. Pelo contrário, optou-se aqui por uma análise não conclusiva, parcial e, principalmente, sucinta. Limitamo-nos a analisar os resultados mais imediatos da disputa eleitoral de 2008 e apontar possíveis tendências em direção a 2010. Uma análise mais bem elaborada sobre o futuro da esquerda brasileira deveria incluir uma série de temas que não foram abordados aqui, dentre os quais a organização dos movimentos sociais no Brasil.
Mas do ponto de vista da disputa eleitoral e dos movimentos em direção a 2010 – objeto de análise proposto por este artigo – acreditamos ser possível extrair algumas conclusões à luz das informações sistematizadas aqui:
Em primeiro lugar acreditamos que é possível reorganizar o campo democrático popular (PT, PCdoB, PSB, PDT) em torno de um projeto de manutenção e aprofundamento da revolução democrática, criando assim as condições para que este campo apresente uma candidatura única à sucessão presidencial;
A postura do PT será decisiva para a unidade deste campo, seja apresentando e discutindo com seus aliados uma plataforma renovada para o próximo período, como também adotando uma postura não-hegemonista na composição de chapas estaduais, que deve considerar a relevância estratégica desta aliança no plano nacional;
A consolidação desta unidade será um passo decisivo para contrabalançar o fortalecimento do PMDB nas eleições municipais e elevar o debate político acerca da composição de uma chapa de centro-esquerda em 2010. Uma candidatura única da esquerda tornará possível um diálogo qualificado com o centro e a construção de uma aliança programática, consubstanciada por uma plataforma em comum para o país e não por meras trocas fisiológicas de espaços de poder;
A unidade da esquerda será decisiva para a sustentação do governo Lula no cenário de recessão da economia global prevista para o próximo período.
O PT deverá, ainda, trabalhar para que o PSOL integre esta frente nos locais onde isto se torne possível, conferindo mais amplitude e diversidade a este movimento.
Esperamos que as direções do PT e dos demais partidos de esquerda possam considerar estes elementos e conduzir um diálogo construtivo e propositivo nos próximos anos, colocando-se, desta forma, à altura dos imensos desafios que se apresentam diante da esquerda mundial neste início de século.
Tarso Genro é ministro da Justiça
Vinicius Wu é chefe de Gabinete da Secretaria de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O papel da internet na campanha de Barack Obama
O papel da internet na campanha de Barack Obama
Para o espanhol Pere-Oriol Costa, especialista em campanhas eleitorais, uso da internet foi uma das peças-chave da vitória de Barack Obama. “Esta campanha”, defende, “redimensionou o papel da internet nas campanhas eleitorais, confirmando sua importância brutal e amplificando muitas coisas que já estavam inventadas, como arrecadar fundos para a campanha e construir uma poderosa rede de voluntários.”
La Vanguardia
Em entrevista ao jornal La Vanguardia, de Barcelona, Pere-Oriol Costa, especialista em campanhas eleitorais, analisa algumas das principais causas do sucesso da campanha eleitoral de Barack Obama. Entre elas, destaca o papel que a internet desempenhou na caminhada do candidato democrata, desde o início da disputa das primárias, quando superou Hillary Clinton.
“Esta campanha”, defende, “redimensionou o papel da internet nas campanhas eleitorais, confirmando sua importância brutal e amplificando muitas coisas que já estavam inventadas, como arrecadar fundos para a campanha e construir uma poderosa rede de voluntários”. Uma parte expressiva do dinheiro da campanha de Obama veio de pequenas contribuições feitas pela internet, o que garantiu maior poder de fogo ao candidato, especialmente na reta final.
Os principais trechos da entrevista:
Quais foram, do ponto de vista da estratégia eleitoral, os fatores-chave para a vitória de Obama?
Pere-Oriol Costa – Nas primárias, Obama percebeu que Hillary Clinton levava dois anos reposicionando-se ao centro, deixando um flanco à esquerda do Partido Democrata. Hillary falava de Deus, da fé e do exército, esperando conseguir um voto mais conservador, mas os blogueiros e a juventude do Partido Democrata a trituraram, acusando-a de trair o partido. Obama aproveitou esse espaço e encontrou eco dentro do Partido Democrata. Ainda que todo seu discurso seja progressista, não representa exatamente um discurso de esquerda ou de direita, mas sim de caráter geracional.
Essa estratégia era destinada a atrair o voto dos jovens?
POC – Buscava atingir mais o Partido Democrata e os jovens e blogueiros o impulsionaram. No voto das primárias, os mais velhos votaram em Hillary e os jovens em Obama. As primeiras análises que nos chegam das eleições presidenciais mostram que cerca de 70% do voto jovem foi para Obama.
Em que sentido a campanha de Obama foi melhor que a de McCain?
POC – A campanha de Obama foi retilínea e os acontecimentos permitiram que ele seguisse uma linha claramente identificável: equiparar McCain a Bush. Com esta linha, ele desgastou a McCain, que seguiu na campanha sofrendo vários tombos.
A mensagem de mudança, de novidade, defendida por Obama, é uma típica estratégia de marketing?
POC – O slogan marca o eixo de toda campanha. Hillary escolheu como eixo sua experiência e Obama percebeu que o fator da vitória residia em explorar o grande sentimento de mudança que existia na sociedade. Enquanto McCain adotou o slogan “o país primeiro”, uma referência à guerra do Iraque, o slogan de Obama permitiu-lhe assumir e tirar vantagens da mudança de sinal na campanha, provocada pela crise financeira. Quando a campanha deixou de estar centrada no Iraque e passou a focalizar o crack financeiro, McCain ficou fora do jogo.
Nas campanhas atuais, é preciso agarrar-se a uma idéia e repeti-la constantemente?
POC – A comunicação política extrai do marketing a idéia da unique selling proposition (algo como proposta de venda única): para que uma idéia sobre um produto encontre eco na opinião pública é preciso dizer uma única coisa, é preciso ter foco. O marketing político utiliza este sistema e tenta enviar uma só mensagem. Se conseguimos englobar tudo o que queremos em uma só mensagem há muito mais chances de que as pessoas recepcionem essa mensagem.
Obama fez isso e McCain não?
POC - Exatamente. Obama utilizou a mensagem da mudança. Yes, we can (Sim, nós podemos). Esta foi a idéia com a qual ele jogou.
Quais foram os erros de McCain?
POC – A escolha de Sarah Palin como número dois foi um erro gravíssimo. McCain representa a ala mais centrista do Partido Republicano e isso era bom para ele porque fazia fronteira com Obama. Mas ele pensou que podia perder votos mais à direita, sucumbiu às pressões e indicou Palin. Ela representa a ala mais fundamentalista do partido, mas, na verdade, a direita mais religiosa teria votado nos republicanos de qualquer forma. Com esse gesto, ele se situou mais à direita e deixou mais espaço para Obama no centro.
Obama também soube aproveitar ao máximo as possibilidades da internet...
POC – Esta campanha redimensionou finalmente a internet dentro dos processos eleitorais. Ela ganhou uma importância brutal e teve amplificadas muitas coisas que já estavam inventadas, como recolher dinheiro e captar voluntários pela rede. Praticamente todo o dinheiro da campanha de Obama chegou por meio de pequenas contribuições via internet.
O que significa isso?
POC – Creio que será transcendente para o mandato de Obama. O fato de ter recolhido a imensa maioria do dinheiro pela internet através de pequenas contribuições converte-o no primeiro presidente que não depende de lobbies, de pressões nem dos interesses daqueles que habitualmente financiam as campanhas. Bush recebeu dinheiro da Exxon Mobil e agora esta empresa está a ponto de perfurar as costas e o Alaska. Recebeu dinheiro das indústrias armamentista e de abastecimento e inventou duas guerras. Recebeu dinheiro das seguradoras e das empresas farmacêuticas e criou uma lei para rebaixar as responsabilidades das mesmas, freando a difusão de um seguro mais barato. Enfim, há uma dependência direta entre quem financiam a campanha e como atua o presidente. Este é um presidente que, em princípio, não deve nada a ninguém.
A internet também pode servir para regenerar o debate político?
POC - Na televisão, é preciso simplificar muito a mensagem e dizer apenas uma coisa, enquanto que a internet, por sua estrutura, permite a recuperação do discurso e do debate político. Para mim, esta campanha começou quando os blogueiros do Partido Democrata passaram a encurralar Hillary. Foi a internet que permitiu isso. Só com a televisão, não teria sido possível. Tem se dito que o efeito da televisão agora é fundamentalmente o debate entre os candidatos. No caso da internet, ainda que seja um debate virtual, o que ocorre é que este debate é muito mais rico.
Os cidadãos também podem participar mais, não?
PCO – A televisão tinha se convertido no cenário onde ocorria a ação política, usurpando, inclusive, o papel do Parlamento. A internet, sem usurpar o papel de ninguém, converteu-se em um novo meio que traz para a política um debate mais rico e um intercâmbio de mensagens.
Tradução: Katarina Peixoto
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Rádios comunitárias e a democratização da mídia
Rádios comunitárias e a democratização da mídia
No ano que vem se cumprem 50 anos da criação da primeira rádio comunitária na América Latina. Em 1947 foi criada a Rádio Sutatenza, na Colômbia, pela Igreja católica com o objetivo de alfabetizar as comunidades camponesas. Em seguida rádios mineiras, na Bolívia, começariam uma vertente distinta das rádios comunitárias: a de expressar lutas de movimentos sociais por seus direitos civis,
No Brasil as rádios comunitárias têm sido vítimas de repressão, com centenas de rádios fechadas nos últimos anos, em condições que buscam diversificar a expressão cultural e informativa, inclusive pelo fato de que o espectro radio-elétrico tem uma capacidade limitada, sendo patrimônio livre da humanidade, não podendo ser apropriado privadamente. Segundo a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos: “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Este direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informação e idéias de todo tipo.” Trata-se de um direito de todas as pessoas e não apenas de jornalistas ou proprietários de meios de difusão.
Quando 26 rádios foram fechadas pouco tempo antes das eleições, Joaquim Carvalho, do departamento jurídico da Associação Brasileira de Radiodifusão afirmou que esse procedimento “faz parte de uma ofensiva de fechamento de emissoras que apoiavam a reeleição de Lula, perpetrada por gerentes regionais da Anatel que ainda seriam da época do governo de FHC”. Os fechamentos de emissoras não seriam ordenados pela presidência da República, mas pelo organismo de controle, o que não isenta a presidência de responsabilidades, ainda mais que esses fechamentos aumentaram durante o primeiro governo Lula.
Existe no Brasil uma lei aprovada em 1998 regulando a radiodifusão comunitária. No entanto o Associação Mundial de Rádios Comunitárias apresentou um documento à Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando que: “Existem para as emissoras não comerciais discriminações explicitas em relação à utilização de um único canal para a totalidade do país, o que fere qualquer vocação pluralista em cada área coberta. Como isso não bastasse em termos de discriminação, sua potência é muito limitada, assim como sua área de cobertura, que não passa de uma área de um quilômetro. Isto se acentua porque elas não podem produzir recursos próprios, o que representa ser penalizadas por ter publicidade.”
Na campanha eleitoral se mencionou a disposição do governo de promover um projeto com o objetivo de “democratizar os meios de comunicação no Brasil”, mas existe o temor de que na realidade possam trazer ainda mais obstáculos às rádios comunitárias. Quando na realidade a defesa e promoção destas é elemento essencial no processo de democratização da mídia brasileira, multiplicando as vozes que se sentem sufocadas pelos monopólios privados da comunicação.
Nas últimas eleições ficou claro que a grande maioria dos brasileiros discorda das orientações dessa mídia monopolista, votando no candidato quase unanimemente condenado por elas. É preciso que essas vozes possam se expressar, para expandir e consolidar a opinião pública alternativa, majoritária no Brasil de hoje.
Postado por Emir Sader às 16:43
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
O Claro e o explícito
"Sou mãe, sou mulher". Ouvi essa frase diversas vezes pronunciada por Micarla de Sousa, candidata do PV à prefeitura de Natal. O que ela significa? Aparentemente seu sentido está claro, evidente. Ela diz o que Micarla é uma mulher, casada, mãe de dois filhos. Mas, enunciada no contexto de uma eleição de forma tão insistente, essa frase não pode ser entendida na simplicidade semântica de seus termos.
O estranho é que ela não era a única candidata a prefeito. Sua concorrente direta, a deputada Fátima Bezerra, apesar de não ser mãe, é mulher. O que significava então a frase recorrente da candidata? Qual o sentido de insinuar essas duas condições como "diferenciais" de sua campanha? Ao afirmar constantemente que é "mãe" e que é "mulher" a candidata Micarla estava conectando o conceito da maternidade ao conceito de gênero e marcando um ponto de diferença, uma particularidade de sua condição que destoava daqueles que concorriam contra ela à prefeitura de Natal. Era como se ela estivesse o tempo todo "provando" (se é que isso é passível de qualquer tipo de prova ou de demonstração) sua condição sexual a partir de sua maternidade.
Não é preciso ser nenhum gênio da publicidade para saber que a frase repetida à exaustão pela candidata do PV tinha um endereço certo. Seu objetivo político era muito claro e seus efeitos foram sentidos em diversos bairros da cidade. Essa frase reforçava, na boca do povo de Natal, o preconceito em relação a sexualidade da deputada Fátima Bezerra do PT. Se a maternidade de Micarla fosse a prova da sua condição sexual, a não maternidade de Fátima colocava em questão a sexualidade da candidata do PT. Esse era o discurso subliminar da misteriosa frase repetida nos programas eleitorais de modo aparentemente despretensioso.
Eu particularmente, quando voto, não estou nem um pouco interessado em saber como o meu candidato pratica a sua sexualidade. Se ele é hetero, homo, bi, poli ou pan sexual (excluindo a pedofilia ou o estupro, para mim não há delito em fazer ou deixar de fazer sexo com quem ou o quê você quiser. Cada um que cuide da sua vida e faça com ela o que achar melhor). Nunca me interessou saber o que meu candidato fazia na cama até porque eu concordo com Nelson Rodrigues, o mago da crônica jornalista brasileira, produtor de algumas das frases mais geniais que eu já tive oportunidade de ler. "Se nós soubéssemos da intimidade sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria na rua". No entanto, essa minha despreocupação não pareceu ser a regra entre os meus conterrâneos nessa eleição.
Entre o normal e o natural, entre o convencional e o proibido, entre a tolerância e o preconceito, algo deixou de ser dito nessa campanha. Provavelmente na história política do Brasil muitos governadores, prefeitos, deputados e senadores tiveram que esconder suas preferências sexuais para poder passar no teste do preconceito popular. Imagino que muita gente casou, teve filhos, cumpriu todos os ritos matrimoniais e sociais exigidos pela tradicional família potiguar (sertaneja, semita, conservadora) para que, diante do seu eleitor e da sua eleitora, não sobrasse nenhuma dúvida de que suas práticas sexuais corriam em pura conformidade com aquilo que o entendimento padrão considera "normal". Muita gente mutilou o próprio desejo, rasgou a própria vontade e escondeu a própria alma para tolher algum suposto "desvio", alguma pulsão, algum trejeito que pudesse "denunciar" sua condição.
Na política brasileira é absolutamente perdoado o dissimulado. Aquele que se esconde é aceito. Mas, entre o dissimulado e o assumido há o explícito. Nem tudo que é explícito, ou aparentemente evidente é claro. Provavelmente provocação que a campanha de Micarla lançou contra a de Fátima poderia ter gerado um fato histórico na política do Rio Grande do Norte. No silêncio de uma e na insinuação da outra se perdeu a opção pela clareza. Entre aquilo que é explícito e aquilo que é insinuado, perdeu-se a chance de pôr as cartas na mesa e discutir, sem rodeios nem dissimulações uma questão central de nosso tempo e de nossa cultura: o que significa ser mulher? Qual o peso da opção sexual de um candidato em uma eleição? Até quando as pessoas serão divididas, menosprezadas, ridicularizadas e classificadas em função da sua religião, da sua raça, da sua cor, condição social ou do tipo de afeto que elas cultivam? Faltou o entendimento central presente no brasão nacional indiano, e que eu gosto de repetir para mim mesmo a exaustão: só a verdade vence.
Pablo Capistrano.
Contraversões eleitorais
(Notas na contramão da ditadura da mídia mercantil)
1. Se os tucanos consideram que Lula foi derrotado, deveriam tê-lo atacado e colocado seu governo no centro da campanha. Se se fosse fazer a lista dos candidatos que elogiaram o Lula – incluindo até o Kassab -, o Lula seria o vencedor praticamente unânime no Brasil inteiro. Serra adianta que não será candidato anti-Lula e sim pós-Lula. Se o bloco tucano-pefelista é essencialmente opositor ao governo Lula, deveria ter outro candidato ou impor uma candidatura opositora frontalmente contra o governo Lula.
2. De fato, os partidos da base do governo são os grandes vencedores, tendo eleito prefeitos em 20 das 26 capitais. O PMDB e o PT, cada um com 6 capitais, são os maiores vencedores individuais.
3. Sobre transferência de votos, recordar que FHC, no seu primeiro mandato – no segundo, à altura em que Lula tem 80% de apoio, FHC tinha 18%, não teria o que transferir, senão um peso negativo -, viu o PT eleger prefeitos em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, entre outras capitais importantes, confirmando como o prestígio nacional não se transfere para o plano municipal.
4. FHC volta a falar da crise. Ele tem experiência: produziu três crises que quebraram três vezes a economia brasileira, as subestimou e foi fragorosamente derrotado nas eleições do fim do seu mandato e amplamente rejeitado até hoje. Poderia ser candidato a algum posto, se tivesse coragem de enfrentar a opinião dos eleitores sobre ele e seu governo, que nem mesmo o Alckmin defendeu, nas eleições presidenciais passadas.
5. A Globo deitou e rolou com seu poder monopolista na mídia carioca: fez tudo até conseguir tirar o Crivella do segundo turno (não por evangélico, mas por ser da TV Record, competidora da TV Globo), fez de tudo e quase conseguiu eleger o Gabeira. Em São Paulo, a FSP, o Estadão, o UOL, fizeram ativa campanha por Kassab, como verdadeiros boletins de comitês de campanha, valendo-se do monopólio midiático que detêm.
6. Os três governadores dos três principais estados conseguiram eleger os prefeitos das capitais. A banca governamental foi a maior vencedora da eleição, somando-se as prefeituras ganhas e os votos recebidos, sai amplamente ganhadora.
7. Os tucanos só garantem bom palanque em São Paulo, ainda assim descontadas as vitórias do PT e da base governamental no ABC, em Baurú, em Campinas e em outras cidades importantes do estado.
8. O antipetismo, como ideologia da classe média conservadora, tem seus núcleos mais fortes em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, com a diferença que neste estado não favorece os tucanos, mas o PMDB, partido da base aliada do governo.
9. Os eventuais efeitos da crise não tiveram nenhum efeito, apesar do clima de terror que a ditadura midiática tenta impor. Mas certamente torna-se um tema central de disputa ideológica, a capacidade de resistência da economia brasileira à crise e o que teria acontecido, caso os tucanos-pefelistas estivessem governando, com todas as fragilidades que impuseram à economia brasileira.
10. A mídia ditatorial foi o grande dirigente político da direita. Torna-se muito difícil um candidato que luta contra ela se impor, se não conta com as realizações do governo. A luta contra a hegemonia do capital financeiro e a ditadura da mídia mercantil são temas centrais para a democratização do Brasil.
Emir Sader é sociólogo e professor.Texto originalmente publicado no Blog do Emir.
sábado, 25 de outubro de 2008
LEVANTAMENTO ANALÍTICO DAS MANCHETES DO JH DURANTE A ELEIÇÃO DE NATAL
A análise a seguir comprova as acusações. E piora a situação do professor. Em primeiro lugar, ele disse em público, no Grandes Temas da TV-U, que o jornal dele foi imparcial. Disse, em segundo lugar, que os espaços conseguidos por Micarla de Sousa foram fruto de bom trabalho da sua assessoria. No entanto, o trabalho de assessoria, se tivesse existido, não foi causador da intensa adjetivação, nas capas, contra Fátima Bezerra e a favor de Micarla de Sousa. Adjetivação é um traço considerável da subjetividade do autor do texto - repórter, editor ou proprietário -, traduzindo assim fortemente a intenção e a opinião do jornal.
Mas não é a primeira vez na história do país que um fato assim tem lugar. Um exemplo clássico, redundante, e estudado exaustivamente na pesquisa universitária e nas mesas de bar, foi a forma como, ao longo do tempo, a Veja construiu a imagem de Fernando Collor (desde a clássica capa que o apelidou de Caçador de Marajás), contribuindo decisivamente, junto aos formadores de opinião, para sua eleição à presidente da república. Tanto Veja quanto Marcos Aurélio defendem os interesses dos mesmos grupos econômicos. Isso Marcos não nega, como deixou claro esta semana ao receber homenagem da Fecomércio: "Fiquem certos todos de que os nossos jornais estão prioritariamente dispostos a continuar defendendo a causa dos senhores, agentes da livre iniciativa, responsáveis diretos pelo custeio da nossa pesada máquina pública, tão desvirtuada e vilipendiada, mas que sempre encontra defensores ferozes, a maioria deles voltados 24 horas por dia apenas para a busca de privilégios e de meios que permitam a exploração ainda maior das classes produtoras e dos contribuintes em geral."
A diferença entre os Civita e Marcos Aurélio é que este último, sem fundamentação conceitual, teórica ou prática, ensina ética jornalística na UFRN há, como ele gosta de dizer, 33 anos. E a diferença entre este momento e o da Veja em 1989 é que, agora, nós podemos contradizer Marcos Aurélio quase de imediato, graças às vantagens da cibercultura internética.
De forma mais prosaica, Marcos tropeça até em pecadinhos. Como acusar, em sala de aula, o presidente Lula de ter estado "extremamente embriagado" no comício da Zona Norte - por que não publicou isso em sua coluna?
Outro tropeço menor, por exemplo, se deu ao afirmar em um editorial no JH Primeira Edição que, no período eleitoral, o jornal jamais teve de retificar qualquer notícia dada. Mentira. Na primeira página de 01/10, o JH publicou: "Militantes do PC do B ateiam fogo na principal via do centro". Após a visita do presidente do partido, Antenor Roberto, o Jornal teve que se desmentir, uma vez que a manifestação não foi de militantes do PC do B.
A seguir, o levantamento das manchetes políticas/eleitorais de Primeira Página do JH (matutino) e Jornal de Hoje (vespertino) nos dois meses (agosto e setembro) que antecederam a eleição para prefeito de Natal.
JORNAL DE HOJE (VESPERTINO)
MANCHETES - PRIMEIRA PÁGINA
AGOSTO
02 – Fátima vai às ruas com Carlos, Wilma e Garibaldi, mas rejeição atinge 41%
04 – Para marqueteiro “rejeição a Fátima é preocupante e esperança é a TV”
05 – Para o vice de Fátima, TV vai justificar o “acordão”
06 – Robinson concorda com Lavô e diz que Micarla está pronta para ser prefeita
09 – “Prefiro dizer que Micarla será a prefeita do povo de Natal”, declara João Maia
11 – Advogada pedirá cassação de candidatura de Fátima por calote do PT em 2004
12 – Para Fátima, não é sua a responsabilidade sobre a dívida de 2004
15 - Micarla diz no CREA que administração de Natal precisa ter planejamento e cumprir metas
21 – Para Agripino, Garibaldi e Wilma se arrependeram de apoiar Fátima
25 – Miguel Mossoró critica Lei Eleitoral – “Justiça me proíbe de dizer na TV que há quatro anos Fátima chamou Garibaldi de ladrão”
26 – Fátima se nega a comentar acusações de corrupção que fazia contra Garibaldi Filho
29 – PPS acusa Fátima de enganar eleitor quando diz que trouxe verbas milionárias para Natal
30 – Coligação de Micarla entra com ação por propaganda de Fátima em evento na FJA
SETEMBRO
01 – Micarla tem 17% de vantagem sobre Fátima e venceria eleição no Primeiro Turno
04 – Deputado de partido aliado diz que “Fátima não destinou um centavo para Natal desde 2006”
05 – Desafio do PT – Fátima renúncia se alguém provar que ela mandou verba para o Paraná
08 – Justiça proíbe Fátima de explorar na campanha que conseguiu verbas para Natal
10 – Documento do Congresso mostra que Fátima mandou mesmo verbas para Astorga e Lobato
11 - Para advogado, Fátima tentou fugir porque sabia que sua presença no evento era ilegal
17 - Para Vober, Lula não terá força para impor mudança de voto aos eleitores
19 - Micarla lidera com 45,9% dos votos na quarta rodada de pesquisas JH-Start
20 - Para Ney Lopes, "Lula virou chefete político e discursou embriagado pelo poder"
22- Juiza defere pedidos de liminares de Fátima e Micarla e manda que parem de ofensas pessoais
25 - Prefeitura cadastra carentes e doa milhares de cestas básicas às vésperas da eleição
26 - Para advogado, "Prefeitura transformou programa social em benefício eleitoral"
27- Para advogado, Wilma Sampaio confirma distribuição "irregular" de cestas básicas
29 – Wilma e Garibaldi abandonam os aliados do interior para tentar salvar Fátima da derrota
30 – Micarla apresenta suas propostas para setor do comércio em reunião no CDL
OUTUBRO
01 – Militantes do PC do B ateiam fogo na principal via do centro
04 – Start: Micarla será eleita neste domingo com maioria de 80 mil votos sobre Fátima
06 - Agripino atribui a vitória "ao carisma e à popularidade de Micarla de Souza"
JH (MATUTINO)
MANCHETES – PRIMEIRA PÁGINA
AGOSTO
04 – Com 54%, Micarla se diz “voando” rumo à vitória
12 – Micarla: “Povo está cansado de gente sem sensibilidade”
13 – Finanças do PT estão debilitadas
16 – Se eleita, Fátima garante diálogo com a sociedade
21 – Aliados de Micarla repudiam ataques de Carlos Eduardo
26 – Garibaldi diz que sofreu com acusações de Fátima
28 – Convescote – Natal Melhor quer processar coligação de Fátima Bezerra
29 – Vober volta a criticar “acordão” dos “caciques”
SETEMBRO
04 – Micarla diz que ataques de Fátima são uma “atitude desesperada”
08 – Paulo Wagner não acredita que presença do presidente Lula interfira na eleição de Natal
09 – Fátima Bezerra – Juíza diz que “propaganda é enganosa”
11 – Prefeituras de Astorga e Lobato não receberam emendas de Fátima
12 – Coligação “Natal Melhor” entra hoje com pedido de cassação do registro de Fátima
13 – Viveiros vai interpelar Mineiro
16 – Ney Lopes acusa ministros de tráfico de influência em Natal
17 – Ainda dá Primeiro Turno
18 – Almir: “Lula precisa conhecer a realidade da Zona Norte”
19 – Oposição diz ser histérica a fala de Ricardo Berzoine
– Editorial: Adulação astuciosa
22 – Micarla diz que eleitor não será influenciado por Lula
26 - Sarney Filho diz que PV terá primeira prefeita
27 - Pela quarta vez, Micarla quer cassar candidatura de Fátima
29 - Pesquisa aponta vitória de Micarla no Primeiro Turno
30 - Funcarte paga auxílio a quadrilhas juninas e coligação de Micarla vai representar na justiça
OUTUBRO
01 - Semtas suspende distribuição de cestas básicas por ordem de juíza
02 - Pesquisa Ibope/Intertvcabugi acena com Segundo Turno em Natal
04 - Micarla alcança 50,9% e sua maioria sobre Fátima chega aos 80 mil votos
06 - Micarla derrota Lula, Wilma e Carlos Eduardo
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O LEVANTAMENTO:
1 - No período do levantamento (agosto e setembro) não foi verificada nenhuma manchete, nos dois jornais, negativas à candidata Micarla de Souza ou à sua coligação;
2 – Comparando-se as manchetes dos dois jornais, constata-se que a postura adotada pelo Jornal de Hoje (vespertino) foi mais desfavorável, em quantidade e conteúdo à candidata Fátima Bezerra e sua coligação; O JH publicou 16 manchetes negativas para Fátima e o Jornal de Hoje chegou a 24 manchetes negativas, totalizando 40 manchetes desfavoráveis à Fátima Bezerra no período apurado.
3 - No período do levantamento foi verificada a ocorrência de um único editorial em primeira página (JH - matutino). O conteúdo criticava a presença de ministros em Natal para apoiar Fátima Bezerra.
4 – Chama atenção na pesquisa o “sumiço” da candidata Micarla de Souza das manchetes de Primeira Página. Quando aparece é com conotação positiva (Ex: “Robinson concorda com Lavô e diz que Micarla está pronta para ser prefeita”).
5 – No Programa Grandes Temas, o diretor dos dois jornais, Marcos Aurélio, negou que tenha havido parcialidade na cobertura da eleição e disse que se Micarla conseguiu “inserir” mais notícias positivas isso se devia à competência de sua assessoria de imprensa. Mas se isso fosse verdade, a adjetivação não estaria tão presente, conotando positivamente as matérias em favor de Micarla e negativamente contra Fátima.
A pesquisa, que não foi feita por mim, revela a desonestidade ética e intelectual do proprietário do Jornal de Hoje na sua defesa intransigente e desnorteada de seus interesses privados, comerciais e políticos. Coloca em questão a possibilidade de o mesmo continuar como professor de ética jornalística da UFRN.
Daniel Dantas
Jornalista e doutorando em Estudos da Linguagem (UFRN)
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
O retorno da intimidade
Eleições pós-modernas associam propaganda e publicidade para fabricar imagens de amor e ódio
As atuais campanhas eleitorais inscrevem-se nas mudanças da esfera pública e no advento de práticas persuasivas ligadas à "peoplelização" - segundo o modelo da imprensa tablóide inglesa das celebridades e do colunismo social. Dão-se na adoção de recursos do showbiz, políticos imitando a vida de stars, sob a hegemonia das mídias de massa, da publicidade, do talk show, o conjunto atendendo à lógica comercial e recreativa.
Até há pouco diferenciavam-se propaganda e publicidade. No século 18 europeu, a propaganda de idéias correspondeu à constituição de um espaço público nascido dos salões literários, a leitura consistindo no meio por excelência nobre da propagação dos valores de aprimoramento da convivência, da confiança, da solidariedade e da philia social. A propaganda moderna fazia parte do ideário iluminista de combate a todos os tipos de preconceito e de obscurantismo, na política, na moral, na ciência, nas artes. O espaço público foi a contrapartida da vida na corte, com seu culto da aparência e da imagem pública do valor de alguém.
Com efeito, ser escolhido pelo Rei Sol, na França de Luís XIV, era o apogeu da vida pública, a partir do momento em que suas formas alternativas, ligadas à cidade e ao civismo, desapareceram, com a derrota dos nobres que se recusavam a abandonar Paris e se confinar na corte. Vencida a Fronda, a capital se transfere de Paris para Versalhes. A vida pública se reduz à vida em público com sua subseqüente teatralização. A corte, sabe-se, é o lugar da vaidade e da dissimulação porque é preciso conservar, a todo custo, o crédito, o favor recebido, a fortuna; razão pela qual ela foi o laboratório dos moralistas, esses analistas das paixões humanas. No século 18, o duque de Nivernais escreve um breve tratado para uso dos cortesãos caídos em desgraça, quando perdem honras e fortuna. Na esfera pública, ao contrário, viria a propagar-se o ideal político democratizante, fundado no debate público, na presença dos protagonistas ou por escrito, o que supunha o fortalecimento do âmbito da argumentação e da informação. Já a publicidade visa a tornar visíveis propriedades reais ou imaginárias de um produto segundo a lógica da compra e da venda para fins de reposição, acúmulo e acréscimo de um capital investido e, no caso, o êxito eleitoral.
A política "people" associa propaganda e publicidade, advindo o marketing político, dirigido ao conjunto dos consumidores de mídias, isto é, o corpo de eleitores. "Revolução conservadora", uma vez que se assiste ao retorno do privado, da intimidade pessoal e da personalização do poder. De onde o tratamento cada vez mais agressivo nas campanhas eleitorais. A mise en scène promocional da intimidade tem por corolário a imprensa sensacionalista e vedetizante, que expõe a intimidade e vive de escândalos, como denúncias de várias ordens e a curiosidade com respeito a preferências sexuais ou alimentares das celebridades. Os acontecimentos tomam a fórmula dos faits divers. Não são estranhos à forma pós-moderna da política traços populistas, pautados pelo fetiche das pesquisas de opinião e determinando a fabricação de uma imagem pública destinada a se tornar objeto de ódio ou amor. A personalização da política contradiz a concepção parlamentar das instituições republicanas. Por isso, o debate nas eleições se guia pela a lógica da conquista a qualquer preço dos cargos eletivos, apelando para um sistema de preconceitos, suscitando o exercício sem escrúpulos de ressentimentos, fruto de uma "rivalidade mimética" com aquele que se ataca. O cidadão, convertido em telespectador e "comentarista" político, confirma as carências e insuficiências do jogo político tradicional. Assim, também a sucessão de escândalos só pode ser mantida pelos procedimentos próprios à média, capaz de reunir em um todo "coerente" um conjunto de elementos desordenados de modo a impedir a reflexão, pois não há como distinguir o que é significativo e o que é insignificante nos noticiários. Cria-se um universo povoado de heróis e anti-heróis,de vítimas e seus salvadores.
O marketing político se desenvolve na campo ideológico da "autenticidade" e da glorificação do homem comum. Alain Ehrenberg indica as conseqüências: a autenticidade que se transforma em "culto da transparência", isto é, da aparência,os políticos treinados como profissionais da comunicação e das "promoções do dia". Neste sentido, em Rua de Mão Única Walter Benjamin escreveu: "O homem pode, se for o caso, colocar ostensivamente sua vida privada em contradição com as máximas que ele defende implacavelmente na vida pública e considera, secretamente, sem a menor dor de consciência, a própria conduta como a prova mais constrangedora da autoridade dos princípios que ele exibe".
O recurso à injúria com a finalidade de votos é prática herdada do jacobinismo e amplamente evocada pelas revoluções que nela se inspiraram, tendo por base a suposta superioridade moral de seus enunciadores com respeito a seus opositores: "corruptos" perseguidos por Roberspierre e Saint-Just (designação que incluía os nobres, os magistrados, os "açambarcadores"); os "renegados" de Lênin (a social-democracia parlamentar de Kautski); os "degenerados" de Hitler (judeus, ciganos e povos "inferiores"). A compreensão da política na oposição amigo-inimigo adota a prática empresarial da eliminação do concorrente. A concorrência pode ser que melhore as mercadorias, mas certamente piora os homens. Uma cidade feliz, ao contrário, é aquela que assegura o máximo de sobrevivência,segurança, justiça, liberdade e amizade para o conjunto dos cidadãos. O espaço público é o que é comum a todos e acessível a todos.
Além disso, politizar todas as dimensões da vida, incluindo a intimidade, é a expressão da despolitização total, pois são mobilizados aspectos protofascistas e autoritários de cada um, como bem o revelam as análises de H. Arendt sobre o totalitarismo. O teor dos discursos dos candidatos confirma a supressão do debate de idéias pela política reduzida à "prestação de serviços". Que se pense na agenda midiática despolitizadora: cotas compensatórias que substituem o enfrentamento da exclusão econômica e cultural da maioria, quando deveriam ser apenas transitórias; indenizações para as vítimas do terrorismo de Estado e o silêncio sobre suas causas, com a conseqüente manutenção da prática da tortura no País. Também os problemas do cotidiano não são considerados políticos para a agenda eleitoral, os que exigiriam questionar as reordenações do capitalismo contemporâneo baseado no descartável e seus resultados desagregadores na vida urbana, dos congestionamentos à desconsideração de atitudes elementares de convivência, como dizer-se "bom-dia" e "com licença", com o que começa, segundo Adorno, toda civilização. A indignidade com idosos e portadores de deficiência, em particular, na circulação pelas ruas ou nos transportes coletivos é conhecida de todos; o rebaixamento estético da cidade, para não falar do ético. De maneira semelhante ao que se passou na França de Sarkozy e na Itália de Berlusconi, a esquerda vem perdendo as eleições porque ela se tornou triste. Os histriônicos e joviais são mais "descontraídos" e convincentes na vitalidade que conseguem afetar.
Dignificar a política necessita refundá-la, na contramão da pseudophilia de uma campanha que precisa buscar as razões de amar que a política perdeu.
(*)Olgária Chain Féres Matos é professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autora de Discretas Esperanças: Reflexões Filosóficas sobre o Mundo Contemporâneo (Nova Alexandria)
domingo, 12 de outubro de 2008
Dicas de Mkt cultural
1- O MARKETING CULTURAL é uma estratégia utilizada pelas empresas para que, através de patrocínios a projetos culturais, agreguem valor às suas marcas.
2- O MARKETING CULTURAL é uma vertente do Marketing Institucional das empresas, ou seja: tem a ver com a sua marca, sua identidade e os valores subjetivos associados ao seu nome.
3- O aumento da venda de produtos com o MARKETING CULTURAL não pode (salvo algumas estratégias específicas) ser medido pelos métodos tradicionais. Por exemplo: o MARKETING CULTURAL permite um grande retorno de mídia espontânea, que medido em valores financeiros, com base na tabela de publicidade dos veículos de comunicação, pode superar em até 10 vezes o valor do patrocínio.
4- Não se pode apresentar um projeto para uma empresa (possível patrocinadora) sem conhecê-la antecipadamente. É preciso saber o que ela faz, o que produz e o que já patrocinou. Este PERFIL DE EMPRESAS PATROCINADORAS vai ajudar você a conhecer melhor as empresas.
5- Todo bom projeto é composto basicamente por: uma apresentação sucinta, uma descrição técnica (como vai ser realizado), um orçamento enxuto, um cronograma de execução e um de desembolso, um currículo dos proponentes e técnicos, uma descrição objetiva dos “retornos propostos ao patrocinador” e anexos (bem escolhidos). Mas um dos elementos principais é a carta de apresentação do projeto, que deve ser personalizada, plenamente identificada com a empresa que se pretende transformar em parceira da nossa proposta.
6- Não se utiliza o MARKETING CULTURAL, partindo do produto cultural. Neste caso o caminho deve ser inverso, é o do “CULTURAL MARKETING”, ou seja: da construção das estratégias eficazes que poderão viabilizar o projeto cultural no mercado. Quem faz MARKETING CULTURAL é a empresa, estabelecendo um conjunto de critérios objetivos de seleção de projetos, em sintonia com seus objetivos institucionais e de marketing de produtos ou serviços.
7- O MARKETING CULTURAL precisa considerar todas as etapas do Ciclo da Produção Cultural: a inspiração que se transforma em idéia, a idéia que é planejada e vira um projeto, o projeto que passa por uma estratégia de marketing para chegar ao mercado, a negociação até o contrato, a produção (equipe, capacidade de realização, melhor época de realização, local, etc) e o planejamento da mídia, para chegar ao público que deseja atingir, cujo perfil deve ser conhecido antecipadamente e com a máxima clareza.
8- MARKETING CULTURAL é uma estratégia de troca: troca-se recursos de patrocínio por retorno institucional (e também por abatimentos nos impostos da empresa, quando se utilizam as leis de incentivo fiscal à cultura). A empresa, ao fortalecer sua imagem pela simpatia que estabelece com o público e a sociedade em geral, também aumenta a venda de seus produtos ou serviços.
9- Muitas vezes o caminho para se chegar a uma empresa é indireto. É preciso saber quem influencia quem decide. Para quem a empresa não pode negar um pedido de atendimento? Um cliente? Um revendedor? Se você desejar obter tinta para pintar um prédio histórico, não peça diretamente à fábrica. Associe-se primeiro à maior loja de tinta da sua cidade. Lembre-se: é a loja que vende tinta. Sua influência pode ser decisiva.
10- Responda rápido. O que é mais fácil: chegar numa grande empresa de petróleo sozinho com seu projeto para buscar patrocínio ou ir acompanhado do proprietário de uma rede de postos de gasolina?
11- Como ser recebido numa empresa para apresentar um projeto? Primeiro: telefone. Você vai se surpreender ao saber que, em muitas empresas, o executivo que decide atende diretamente e marca os encontros. Segundo: passe um E-mail; pode funcionar. Terceiro: busque algum conhecido que trabalhe lá e vá indicado por ele. Mas procure sempre estabelecer um encontro. Nada como olho no olho e cara a cara, para se viabilizar um projeto.
12- Antes de tudo, procure iluminar seu projeto. Lembre-se: um projeto é uma idéia, uma proposta (um sonho) na forma de papel. Como ele ainda não foi realizado, é um produto imaterial, não pode ser testado antes de ser comprado. É preciso que esta idéia, cheia de energia positiva, apareça, ganhe vida e força para acontecer. Registre-a e mostre-a para que ela vá ganhando presença no inconsciente coletivo das pessoas.
13- Não tenha medo de que seu projeto seja roubado. Perceba que você captou uma idéia que está no subjetivo de todos. Outras pessoas podem captá-la.
14- A apresentação visual do seu projeto é fundamental, assim como a objetividade da sua proposta. Não escreva uma tese. Deixe os textos longos para um segundo momento. Não faça poesia. Não procure mostrar erudição. Ao apresentar uma proposta de um espetáculo teatral, leve sempre o texto da peça numa pasta à parte e saiba perceber o momento propício de apresentá-lo.
15- Não confie muito num patrocinador que estiver interessado apenas em projetos enquadrados nas leis de incentivo e que não deseja nem conhecer o conteúdo do seu projeto. Pode estar certo que mais adiante o seu prejuízo será grande.
16- O boato que corre no mercado de que o patrocinador que utiliza incentivos fiscais é investigado por fiscais da Fazenda é a maior mentira que existe no mercado cultural. É um boato criado possivelmente por quem não gosta de dar incentivos, desconhece o papel social das empresas e cuida apenas do lucro, sem dar qualquer retorno à sociedade que sustenta sua empresa.
17- O caminho consciente para a viabilização de um projeto não é aquele que vai da emoção para o público, do público para mídia e da mídia para o mercado. Este sentido torna seu projeto vazio de conteúdo e identidade. O caminho da arte é duro – parte da emoção, da visão, para o planejamento e depois para o mercado, de forma a despertar a mídia e o público.
18- Todo projeto se viabiliza através de uma Rede de Parcerias. Forme a sua.
19- Para um empresário do tipo “perfeccionista”, saiba que ele vai tentar alterar, mesmo que seja em pequenos detalhes, o seu projeto – de forma que fique como ele gostaria que fosse. Afinal, “quem conhece a empresa é ele”.
20- Não é necessário mudar o conteúdo de um projeto para atender a um patrocinador. As mudanças que podem acontecer referem-se à forma de apresentação do projeto, à inserção de retornos, detalhes do plano de mídia e outros relativos aos interesses diretos do patrocinador – mas nunca interferem diretamente na criação.
21- Coloque sempre no seu projeto esta afirmação: “estamos abertos para discutir outras formas de retorno de interesse da empresa”.
22- Um “captador de recursos” é um péssimo nome dado a um profissional fundamental para viabilizar um projeto. Podemos chamá-lo de “consultor de marketing cultural”, de “engenheiro cultural” ou “assessor de marketing cultural”.
23- Um consultor de marketing cultural pode receber para captar recursos para um projeto até o valor de 10% (em relação ao valor global da produção do projeto), correspondendo ao item “agenciamento”, conforme estabelece a Lei Rouanet. Este percentual acabou se tornando um padrão no mercado, mas, dependendo do trabalho, a negociação é livre.
24- Diante de qualquer projeto que você deseja viabilizar no mercado é necessário perguntar: “O que este projeto tem a ver com a minha trajetória e experiência de vida?” Caso seja realmente vital para você, então com um pouco de conhecimento do mercado, apoio de profissionais e constituição de uma rede de parcerias, com toda certeza ele será viabilizado. Lembre-se que sonhar é construir no futuro.
25- Lembre-se sempre: quando acreditamos realmente em alguma coisa com benefício social, todos colaboram para que ela aconteça.
26- O profissional de marketing cultural e cultural marketing é o artista do mercado. Ele precisa conhecer bem o projeto, os proponentes, artistas, a obra em pauta, as etapas de produção, a mídia necessária e possuir relacionamentos com empresários. Deve estar sempre atualizado com as oportunidades de negócios do mercado. Precisa ler revistas empresariais que falam das questões internas e os produtos de potenciais patrocinadores. Deve conhecer os prazos para apresentação de projetos nas empresas e muito mais. Não é uma pessoa fria, muito pelo contrário: deve ter sensibilidade total – da poesia à lógica de venda.
27- Não se vende um projeto cultural, portanto não há motivo nenhum para você ter trauma de venda. Nós apresentamos um projeto cultural ao mercado. Se um projeto cultural fosse vendido para um patrocinador, ele o levaria para casa.
28- Para um patrocinador emotivo, não se esqueça de dizer que ele será convidado para subir no palco no dia do lançamento do projeto para receber uma homenagem “espontânea” dos artistas. Por mais que ele diga que isto não é preciso, vai gostar da idéia. Agora, para um patrocinador do tipo “auditor”, fechado, nem pense em convidá-lo para aparecer – pois ele quer ficar de longe, observando.
29- É difícil você viabilizar mais de um projeto para uma mesma empresa. Como você levou muito tempo para conseguir entrar lá, não custa nada divulgar os critérios dessa empresa para o mercado.
30- Este é um mercado no qual não se trabalha sozinho. Um projeto cultural na gaveta, dificilmente sai dela por demanda de mercado. Ninguém vai ligar para um poeta perguntando: “Por acaso você tem aí em casa um conjunto de poemas para publicar um livro?” Um projeto acontece através de redes: você envolve com a sua fé uma dezena de pessoas que, por empatia com o projeto, sensibilizam outras, até que uma energia luminosa se condensa numa cadeia produtiva e aí começam as coincidências (que não são coincidências): alguém o procura; uma pessoa que você há muito tempo não vê, telefona; um amigo de infância assume a gerência de marketing de uma empresa patrocinadora e assim vai acontecendo o seu projeto.
31- Nunca despreze sua agenda de telefones, inclusive aquela antiga. Tenha sua agenda organizada, saiba onde estão as pessoas. Crie sua rede de contatos. O Senhor Nélio Botelho, líder dos caminhoneiros, faz uma greve nacional, falando apenas com 150 líderes, que por sua vez mobilizam milhares.
32- Para uma boa prestação de contas ao Poder Público, de um projeto que utilizou as leis de incentivo, é necessário pensar na administração dos recursos desde a elaboração do orçamento. Saiba que a “Consolidação Bancária” (transcrição do extrato da conta do projeto com informações sobre entradas e despesas) é que será avaliada pelos órgãos de governo.
33- A identidade cultural brasileira é o nosso melhor negócio. Projetos neste sentido ganharão força nos próximos dez anos. Toda moeda tem duas faces: a cara e a coroa. A coroa representa os recursos e a cara a nossa cultura e a nossa identidade. Não haverá desenvolvimento sem os dois lados da moeda.
34- Da mesma forma que um artista plástico faz pesquisas de materiais e temas para sua obra, o profissional de marketing cultural e de cultural marketing analisa um projeto e suas possibilidades no mercado.
35- Caso você esteja começando no mercado e pensa que seu projeto, por exemplo, de uma peça de teatro, não será nem analisado por um patrocinador, existem duas saídas. Em primeiro lugar, não tenha este preconceito, pois novos talentos são cada vez mais alvo das empresas patrocinadoras; em segundo, se este for o impedimento, convide um ator ou diretor conhecido para apresentar seu projeto. Escreva na capa “Alberto Roberto apresenta: O Grupo Novo de Teatro” e vá em frente.
36- A melhor época para apresentar um projeto a patrocinadores é de agosto a novembro, período no qual eles estão pensando nos investimentos de marketing que farão no ano seguinte. Embora seja grande o número de empresas recebem projetos ao longo de todo o ano. Saiba qual o melhor período para apresentar projetos a cada uma. Algumas empresas estão passando a receber projetos via INTERNET e outras contratando profissionais do mercado para analisar previamente projetos, segundo critérios pré-estabelecidos. Nunca se esqueça de que cada caso é um caso.
37- A maioria das empresas não possui um Plano de Marketing Cultural ou critérios objetivos de patrocínio. Isto torna o mercado muito aberto. O Perfil de Empresas Patrocinadoras poderá facilitar seu trabalho neste sentido.
38- O mercado cultural ainda é muito desunido – e isto é ruim. Procure formar redes de parceria, precisamos ser mais profissionais, com ética, sem qualquer prejuízo para as obras ou para nossos artistas. Não tenha preconceito quanto ao “mercado cultural” – ele é o lugar onde vendemos ingressos, quadros, livros, buscamos apoios e patrocínios.
39- O mercado cultural vai muito além do que se imagina: ele possui interfaces com o turismo cultural, gastronomia típica, educação, área social, ciência e tecnologia, urbanismo, lazer, saúde, comunicação, artesanato e muitas outras áreas indispensáveis ao desenvolvimento humano, econômico e social.
40- É a falta de cultura que não percebe a importância da cultura no desenvolvimento de um país.
41- A educação ensina a ler e escrever, mas só a cultura ensina a enxergar.
42- Um projeto cultural com interface social pode fornecer ao patrocinador, além de incentivos fiscais, mídia espontânea e benefícios definitivos para as pessoas envolvidas, como o desenvolvimento da criatividade, auto-estima, relacionamento e segurança. Um projeto apenas social não oferece tudo isso e pode cair no paternalismo filantrópico.
43- Patrocinadores da construção civil preferem patrocinar livros sobre os bairros e as cidades onde possuem negócios. Também atuam na restauração de patrimônios históricos. Tais critérios têm coerência. Os livros aproximam a empresa dos moradores e a preservação de patrimônios históricos, além de utilizar os mesmos materiais que eles utilizam na construção (identidade), agregam valores de idade (credibilidade) memória e história às suas marcas.
44- Ao patrocinar novos talentos, uma empresa agrega à sua marca o valor de quem sabe “apostar no futuro”.
45- Algumas empresas preferem o teatro pela possibilidade do marketing de relacionamento, ou seja, poder realizar apresentações fechadas com seus clientes.
46- Muitas empresas escolhem uma área apenas de patrocínio, outras definem um critério para todas as áreas, por exemplo: “projetos que valorizem a identidade cultural do local onde atuam”. Outras partem para grandes eventos de massa. Cada caso é um caso.
47- Um patrocinador do tipo autoritário, daqueles que possuem uma mesa grande com fotos suas e diplomas na parede, antes de ler o seu projeto, vai querer saber quem lhe indicou, que interesses possui nesta pessoa ou instituição. Patrocinará para aumentar seu poder e negócios, ou por uma amizade fiel. Não abaixe a cabeça ao dialogar com uma personalidade autoritária que fala alto e é agressiva. Fale no mesmo tom.
48- Saiba sempre que um “não” ao seu projeto não significa nada; é apenas um sinal corretivo de rumo para uma nova apresentação.
49- Você nunca saberá se um patrocinador vai lhe receber se você não for procurá-lo. Certo?
50- Finalmente, nunca se esqueça: o objetivo maior de um artista é a conquista do seu público. Estude tudo que existe sobre mobilização de pessoas, conquista e fidelização de clientes. Ter público é ter mídia. E se você tiver público e mídia, os patrocinadores baterão à sua porta. Nenhum projeto resiste se depender apenas de patrocínio.
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Estrevista com Celso Frateschi ao site cultura e mercado
Celso Frateschi - Não acredito que o ministro esteja articulando um movimento conspiratório contra mim. Sinceramente não me dou essa importância. Sei que, apesar de meu objetivo ser o da modernização e racionalização da gestão e das políticas públicas para as artes, acabei por atiçar em um vespeiro que desacomodou muita gente e mexeu com muitos interesses. Cito alguns deles como exemplo: a tentativa dos produtores cariocas de impor o nome o produtor e diretor teatral, Dudu Sandroni como diretor da área de Artes Cênicas da Funarte. Disse-lhes que compreendessem que era um cargo que deveria estar comprometido com as metas da Funarte que são nacionais, e que não poderia nomear uma pessoa que respondesse mais a sua entidade de classe do que as diretrizes do ministério. O primeiro conflito começou aí, nos meus primeiros dias de trabalho na instituição. Nós aprofundamos os critérios republicanos e federativos de nossos programas e editais, o que já tinha se iniciado na gestão de Antônio Grassi, criamos os programas de Bolsas de Criação atendendo diretamente o artista e ampliando as nossas ações para muito além do eixo da produção teatral de Rio e São Paulo. A questão das análises dos Pronac é outro ponto de conflito interno e externo. Interno pois no momento em que zeramos o passivo revelou-se toda a fragilidade de gestão nessa área dentro do Ministério. Se hoje a Funarte leva de 14 a no máximo 21 dias para analisar um processo, por que o produtor demora tanto para ter a publicação do certificado de captação? Perderam a “Geni” que maquiava a incompetência. Externamente, ao acabarmos com os atrasos, tornamos desnecessária a função dos acompanhantes dos projetos que povoavam os corredores da instituição e mexemos num nicho de interesses que não tinha sido mexido desde o início da Lei Rouanet. Na área das Artes Visuais criamos editais para dar acesso para além dos indicados pela chefia do setor e ao acabar com isso mexemos em interesses mesquinhos e agressivos. Ao mexer no projeto Pixinguinha que era totalmente produzido no Rio de Janeiro e exportado para o resto do País mexemos em muitos interesses ao torná-lo nacional. No programa de Bandas, ao racionalizarmos minimamente a gestão do programa e entregar os recursos para serem usados diretamente por elas, mexemos em interesses daqueles que se beneficiavam com a compra, armazenamento, teste, transporte e capitalização política do momento de entrega dos instrumentos aos seus destinatários finais. Poderia elencar todo um conjunto de medidas meramente administrativas responsável pelo descontentamento de muita gente que viu seus interesses prejudicados. O ministro infelizmente preferiu dar ouvidos a esses interesses e não ao seu subordinado direto, responsável pelas mudanças. Senti que não tinha mais a sua confiança e pedi demissão.
LB - Temos informações de bastidores que dão conta de algumas sondagens do presidente Lula para ocupar o Ministério da Cultura, como, por exemplo, Marilena Chauí e Paulo Betti. Você chegou a ser cotado para o cargo? O PT reivindicava o cargo para o partido. Você era candidato natural do PT? Você enxerga nessa especulação de bastidor algum tipo de descontentamento com o atual ministro, a exemplo do que houve com o Antonio Grassi?
CF - Não era candidato. Sempre desejei fazer um bom trabalho na Funarte. Apesar de minha identificação com o PT, não sou filiado ao PT e não acompanho nenhum bastidor. Meu compromisso foi procurar desenvolver as metas propostas pelo Ministro Gilberto Gil e pelo Presidente Lula.
LB - O atual ministro tomou posse prometendo potencializar a Funarte. Havia ali alguma crítica velada ao seu trabalho? Como você se posicionou internamente diante disso?
CF - A Funarte durante a minha gestão, ao contrário do Ministério, nunca escondeu a sua fragilidade administrativa. Ingenuamente acreditei que se tratava de finalmente se municiar a Funarte de estrutura administrativa e de recursos orçamentários capazes de potencializar a efetivação de sua missão pública. Infelizmente o que se demonstrou depois foi exatamente o contrário. O problema é que a Funarte resolveu enfrentar os seus problemas e pelo visto agora terá que continuar disputando com o mercado de forma esquizofrênica os recursos da Lei Rouanet, com o seu estatuto extremamente presidencialista e sem controle de conselho público. Ao perceber o meu engano, pedi demissão.
LB - Em sua opinião, quais os principais pontos de divergência entre a atual gestão do MinC e o período de Gilberto Gil?
CF - Gilberto Gil sempre foi, como diz o atual Ministro Juca Ferreira, uma bandeira e um escudo para todos nós. A sua figura como artista significa em si os nossos sonhos de país. Não é somente no programa que se estabelece a diferença, mas na forma (e no tempo) de como se deve implantá-lo. E aí a diferença é entre o vinho e o vinagre. Com certeza, o patrimônio do ministro Gil foi fundamental para que o Presidente Lula aprovasse o Programa Mais Cultura, com certeza uma ação que se vingar entrará na história da cultura brasileira. Eu estive no lançamento em Brasília em 4 de outubro de 2007. Até hoje, não temos uma atividade do Programa chegando ao cidadão. É muita reunião, muita discussão que não se encerra e, de repente, é esquecida. Minha torcida, agora de fora, é que o Programa seja vitorioso. A mudança de qualidade do Ministério está intimamente ligada ao Mais Cultura, principalmente pelo o aval que o Presidente Lula depositou em todos nós.
LB - Quais são as prioridades da Funarte hoje? O que você aconselharia ao seu sucessor?
CF - As prioridades são aquelas que explicitei genericamente em minha carta de demissão. Vejo como fundamental que a Funarte rompa com a sua cultura interna corporativista e “cariocacentrista”, onde quando se fala de nacionalização limita-se a uma missão iluminista da produção do eixo Rio-São Paulo percorrendo o “ignaro” e imenso território existente atrás do Cristo Redentor que se chama O Resto do Brasil. É preciso atualizar o estatuto da instituição, modernizar seu organograma, definir claramente a sua missão e suas responsabilidades frente a um Sistema Nacional de Cultura, pactuado com os setores da produção artística, com as Secretarias e Fundações Estaduais, com as Secretarias Municipais de Cultura. Iniciei este processo em fevereiro de 2008, começando a desenhar o Planejamento Estratégico, inclusive com a participação do atual ministro e o conjunto dos dirigentes da Funarte, inclusive alguns que agora me atacam. Ou seja, acabar com o balcão, para o público interno e para o público externo.
Para terminar sugiro um cenário, para que artistas, produtores e instituições culturais públicas e privadas interessadas em um Política Pública para a Cultura opinem. Hoje o valor da renúncia fiscal se aproxima de 1 bilhão. Sem nenhum abalo do “mercado”, vamos imaginar que 150 milhões sejam deslocados anualmente para um Fundo Setorial das Artes, para transferência por meio de seleção pública a artistas e grupos dos setores de artes visuais, cênicas, música, literatura, entre outros, em parceria com Secretarias Estaduais de todo o país. Para comparar, informo que o atual Programa de Bolsas que se encontra com inscrições abertas em várias áreas (R$ 30.000,00 para um período de até seis meses) está investindo diretamente para 100 bolsas o valor de R$ 3.000.000,00. Considero que este debate é muito mais importante do que as brigas por cadeiras e cargos.
Frase de Cascudo
sábado, 11 de outubro de 2008
RODRIGO LEVINO
ESCRITOR
A vitória - assim como a morte - é pródiga em absolver canalhismos. Por isso, é provável que agora, quando o cheiro de pólvora dos fogos de artifício do êxito de Micarla de Sousa à prefeitura de Natal ainda é sentido nas ruas, alguns exemplares da espécie permaneçam incólumes na sua desonestidade.
Digo, jornalistas, coleguinhas, atiradores por bem dizer. Aqueles que, com seus blogs, editorias e colunas, praticaram ao longo do último pleito um jornalismo enlameado por vícios do arco da vovó, de tão velhos, é verdade, mas renovados com um fôlego admirável.
Não bastasse ser a candidata eleita dona de uma emissora de TV e receber apoio de outra, de propriedade do principal patrocinador da sua candidatura - aonde faz alguns meses era enxotada com críticas devastadoras, justo por fazer uso do veículo para alavancar a carreira política -, formou-se no seu entorno um exército de jornalistas e formadores de opinião simpatizantes à sua candidatura, que ultrapassou os limites da simples preferência pessoal.
Convenhamos, agora protegidos pelo êxito de quem defenderam, e o ego (quando não o bolso) blindado com a vitória eloqüente das grandes “previsões” que fizeram, seguirão como se nada de grave, anti-ético e desprezível tivessem cometido. O que jamais concederá o direito da concordância ampla e irrestrita, é verdade.
É também provável que, caso assumam de público a carapuça, clamem por liberdade de empresa. Um ato falho, nota-se.
Pois de imprensa restou a queda e o coice (para o bom leitor, claro) da torcida disfarçada de opinião, do pitaco de mesa de bar emulado como análise, do mau caratismo da parcialidade levada às últimas conseqüências de quem, não tendo a decência de assumir a posição política (ou seria a intolerância de gênero e classe?) publicamente,optou pela desonestidade como fato a ser noticiado.
Talvez não haja como medir, ainda, o alcance, principalmente junto à classe média, do trabalho realizado em prol de Micarla de Sousa pelos cabos eleitorais que ela conseguiu angariar e manter na imprensa local, seja espontânea ou venalmente.
Mas, um alerta é necessário fazer a prefeita eleita: a fatura será cobrada, com o mesmo voluntarismo de quem se dispôs a botar a mão no fogo, a credibilidade na aposta e até o rosto no vídeo.
E, caso não sejam atendidos nos seus pleitos, orelhas, preás e boquinhas, não deve haver engano: empunharão a bandeira de um jornalismo oposicionista, feroz e desleal, tal qual o experimentado por Fátima Bezerra nos últimos meses. Faz parte do jogo, da troca de favores..
Como é esperado que sigam todos os protagonistas dessa pantomina vergonhosa e amoral, por uma linha egípcia de comportamento, desviando os olhos da verdade, resta lamentar profunda e somente pelos leitores. Ludibriados, trocando as moedinhas que pagam a edição do dia por um panfleto político, inclusive distribuído como tal, não esqueçamos, gratuitamente.
De pronto,o desejo de sorte a Micarla de Sousa com o ninho de cobras que será obrigada a manter passadas as eleições.
Ou que rompa, como ousou no seu discurso dissimulado, com a tradição nefasta que há, como se diz na Bispolândia (uma terra não tão distante assim) de manter essas aves de mau agouro com fartas e variadas porções de milho.. Que escolha o melhor caminho.
100 anos de Cartola
Amanhã, todo o país deve(ria) comemorar os 100 anos de nascimento de Angenor de Oliveira, o Cartola. Figura ímpar da música e da cultura popular brasileira. Cartola nasceu no bairro do Catete. Foi o quarto dos sete filhos que seus pais tiveram.
A qualidade e a quantidade de suas poesias esconde aos incautos que Cartola estudou somente até o equivalente aos primeiro anos do Ensino Fundamental. Sempre viveu de "bicos": foi pedreiro, pintor de paredes, lavador de carros, vigia de prédio e contínuo de repartição pública.
Aliás, foi como pedreiro que ganhou seu apelido, "Cartola". Conta-se que, vaidoso, quando trabalhava com cimento se aborrecia por frequentemente sujar os cabelos. Passou então a sempre usar um chapéu para proteger os cabelos do cimento. Os amigos então o apelidaram de Cartola.
A maior parte da vida, Cartola dedicou à Mangueira como diretor de harmonia e um dos compositores da Escola. Seus sambas são gravados por muitos cantores durante a decáda de 1930 e em 1940, participa de gravações com vários músicos brasileiros (Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Jararaca, Zé da Zilda e outros) a bordo do navio "Uruguai". Estas gravações se destinavam a um projeto do maestro americano Leopold Stokowski, e só foram lançadas nos Estados Unidos em 1946, numa coletânea intitulada "Native Brazilian Music".
Por volta dos anos 50, o cronista Sérgio Porto (também conhecido como Stanislaw Ponte Preta) o encontra lavando carros, trabalhando num posto em Ipanema nas madrugadas, e o relança como cantor e compositor.
Em 1952 curado de uma forte meningite, volta a viver no morro da Mangueira (havia se mudado para a Baixada Fluminense depois de discordar dos diretores da Mangueira, sobre os rumos da Escola de Samba) e começa a namorar a também viúva dona Euzébia Silva do Nascimento, a famosa Dona Zica - irmã da mulher do companheiro (e grande sambista) Carlos Cachaça. Dona Zica e Cartola haviam crescido juntos, haviam se conhecido nos desfiles dos blocos carnavalescos de rua. Cartola era dos "Arrepiados" e Dona Zica era do "Bloco do Seu Júlio". Cartola e Dona Zica casam-se depois de doze anos juntos, em 1964.
É ao lado de Dona Zica que Cartola compõe "As Rosas não Falam", "Nós Dois" (dois dias antes do casamento de Cartola e Dona Zica), "Tive Sim" e "O sol nascerá" (parceria com Elton Medeiros e gravada por Nara Leão).
Um homem cuja Escola que amou foi uma de Samba...cuja beleza das letras não foi aprendida em processos didático-pedagógicos sistemáticos e diretivos, mas pela alma poética, pelos amores experienciados. Isso não desmerece nada ou ninguém. Apenas nos põe atentos à beleza e riqueza dos processos humanos e pedagógicos muitas vezes invisíveis.
Há uma frase atribuída a Nelson Sargento (outro compositor carioca ilustre), muito bonita, segundo a qual, "Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve."
Sonho ou não, Cartola foi e é trilha sonora para muita gente. Tanto pelas músicas que compôs, como "As rosas não falam", como por aquelas que mesmo não sendo dele, ele as imortalizou, como "Preciso Me Encontrar", de Candeia.
E minha homenagem a ele vai com ela...
"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar
Quando eu me encontrar
Quando eu me encontrar
Depois que eu me encontrar
Quando eu me encontrar
Depois, depois
Que eu me encontrar
Quando eu me encontrar
Depois, depois
Depois que eu me encontrar..."
Bom final de semana a todos e todas...
Sandro Azevedo
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Balanço
| Veja o balanço completo do desempenho do PT nas eleições de 2008. O PT está entre os partidos que mais cresceram nesta eleição. Nada menos que 33%; É o que manteve o maior percentual de prefeituras, simplesmente56%. É o partido que ganhou mais capitais no primeiro turno. Foram seis. E é o que está em mais disputas no segundo turno. Nada menos que 15 dos maiores colégios eleitorais do País. Na análise pelo porte dos municípios, o partido também cresceu em todas as faixas, com destaque para aqueles que têm entre 10 mil e 20 mil eleitores, nos quais o aumento de prefeituras conquistadas pelo PT subiu de 76 em 2004 para 121 agora. Entre 20 e 50 mil o aumento foi de 41%; entre 50 mil e 150 mil, de 25%; e abaixo de 10 mil, de 26%. Nas grandes cidades, com eleitorado superior 150 mil, o crescimento parcial foi de 5%, índice que pode chegar a 72%, caso o PT conquiste os 15 municípios que disputa em segundo turno. Estes e outros números estão no balanço do 1º turno elaborado pelo GTE - Grupo de Trabalho Eleitoral do PT e apresentado na última terça-feira durante reunião da Comissão Executiva Nacional. No Rio Grande do Norte, o PT perdeu uma prefeitura, Florânia, por apenas 60 votos de diferença e conquistou duas novas, sendo a de Ipanguaçu, um importante município de Vale do Açu e Parelhas, um dos municípios mais importantes do Seridó. O PT tinha apenas dois vice-prefeitos. Agora tem nove e de 32 vereadores passou para 59 parlamentares municipais eleitos. O vitorioso?
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