domingo, 23 de novembro de 2008

A esquerda brasileira e as eleições municipais de 2008

Como em qualquer período pós-eleitoral, mal termina a contagem dos votos e imediatamente vemos multiplicarem-se análises e “balanços” que, em sua maioria, buscam apressadamente decretar – com exatidão matemática! – os vencedores e os derrotados das urnas. Entram em campo uma infinidade de analistas, cientistas políticos, dirigentes partidários e jornalistas, quase sempre inclinados a organizar seus balanços à luz do “placar” oposição x governo. Mesmo sem a pretensão de desconsiderar a importância deste tipo de análise, optamos, nas linhas que se seguem, por um esforço distinto: nos interessa aqui compreender o significado destas eleições para o futuro dos partidos de esquerda no Brasil.

Pretende-se, portanto, neste breve artigo, não apenas contabilizar o resultado imediato das urnas, mas principalmente, identificar quais “tendências” foram determinantes no comportamento dos partidos de esquerda para, a partir daí, projetar alguns cenários possíveis para o próximo período.

Para facilitar a compreensão das idéias que serão apresentadas a seguir, optamos por organizar o presente artigo em três momentos: no primeiro buscar-se-á avaliar o resultado obtido pelo PT, considerando a ainda recente crise vivida pelo partido e os desafios para o futuro suscitados nestas eleições. No segundo momento, nos debruçaremos sobre o desempenho dos partidos que compuseram o “bloco de esquerda” – PC do B, PSB, PDT – visando, principalmente, analisar se a proposta de organização deste “bloco” sai fortalecida ou fragilizada destas eleições. E por fim, analisaremos o comportamento da esquerda radical, representada pelo PSOL, tentando compreender que indicações podem ser extraídas de sua atuação durante o processo eleitoral.

1. O desastre faltou ao encontro: a reafirmação do PT

“O PT já acabou. É um cadáver insepulto. (...) Quem decidiu a eleição de 2006 foram os pobres” Luís Mir, 50 anos, jornalista e historiador espanhol em entrevista à revista Época em 11/05/2007.

O que chama a atenção na afirmação acima, além da veemência do autor, é o período no qual foi formulada. Afinal, mesmo após a reeleição de Lula, Luis Mir e diversos outros analistas insistiram em afirmar que Lula havia sido reeleito “apesar do PT” e que o partido havia se transformado num fardo pesado para o presidente.

Uma das principais conclusões que podemos tirar destas eleições municipais parece óbvia, mas não o era há dois anos. A reafirmação do PT enquanto força política estável e decisiva no quadro político-partidário brasileiro, embora pareça “natural”, não deve ser menosprezada. Afinal, nunca é demais recordar o entusiasmo arquejante de um dos principais postilhões da ditadura, que prometia livrar-se desta “raça” por 30 anos. Trata-se, portanto, de um resultado importantíssimo para o futuro da democracia em nosso país. Bem distante do futuro catastrófico que setores conservadores da grande imprensa anteciparam-se em anunciar após a crise de 2005, o PT enfrenta sua segunda eleição “pós-crise” sem expressar nenhuma evidência de que tenha tornado-se um “cadáver político”, ancorado no prestígio do Presidente Lula. A força de sua maior liderança é inquestionável, porém, o PT não se arrasta à sombra de Lula e tem totais condições de afirmar seu protagonismo no debate sobre a sucessão presidencial de 2010.

Aliás, alguns setores da mídia afirmam agora que a transferência de votos do presidente Lula para o PT foi limitada. Ao fazê-lo, porém, deixam de concluir seu raciocínio e reconhecer, então, que o PT foi o grande responsável por sua própria votação. A insistência destes setores em decretar uma suposta derrota do PT nestas eleições beira a obsessão. Pretendem, novamente, decretar a “crise” ou a “falência” do PT, mesmo diante do aumento de 36% no número de prefeituras governadas pelo partido ou das 22 vitórias entre as 79 cidades com mais de 200 mil habitantes.

Entretanto, mais importante do que refutar a argumentação da direita é verificar se o PT, na condição de principal partido de esquerda no Brasil e líder da coalizão que governa o país, demonstrou nestas eleições capacidade de prosseguir liderando este processo que pretendemos denominar de “revolução democrática”.

No que se refere à sua política de alianças, o partido demonstrou um desempenho contraditório. Esteve isolado, ou parcialmente isolado, em disputas importantíssimas, como as de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Porém, foi capaz de demonstrar capacidade de aglutinação, maturidade e coerência programática para montar grandes e vitoriosas coalizões em capitais como Recife, Vitória, Fortaleza e grandes cidades como Guarulhos/SP e Canoas/RS. De forma bastante resumida, poderíamos dizer que naquelas cidades nas quais foi capaz de organizar alianças amplas, coerentes com a perspectiva de um partido que governa o país, o PT saiu-se vitorioso, ao passo que nos locais nos quais esteve isolado, o partido sofreu duras derrotas.

Em relação ao conteúdo programático apresentado pelo partido, fica evidente que há uma importante equação a ser resolvida nos próximos anos: o partido ainda não encontrou um discurso adequado à nova realidade social do país, fruto dos seis anos de governo Lula. A “nova classe média”, em especial aquela localizada nos grandes centros urbanos, recebe com grande apatia o discurso centrado na mera defesa das conquistas sociais obtidas nos últimos anos. Fica cada vez mais evidente que, em 2010, não será suficiente para o candidato do PT simplesmente “defender as políticas sociais” do governo Lula, até porque tudo indica que nenhum outro candidato terá coragem de apresentar um programa de “revisão” de iniciativas como o Bolsa Família, por exemplo. A manutenção da agenda social iniciada no governo Lula tende a se transformar no grande consenso do debate sucessório de 2010. Ao PT caberá apresentar um programa consistente de aprofundamento da Revolução Democrática, que seja capaz de mobilizar os setores médios da sociedade, ao mesmo tempo em que mantenha e aprofunde os laços de nosso projeto com os mais pobres.

Ficou evidente ainda que nossa abordagem acerca das administrações municipais, por todos nós conhecida como “o modo petista de governar”, carece de profundas atualizações, capazes de agregar ao nosso discurso sobre as cidades uma visão integrada de desenvolvimento local, que seja capaz de organizar cadeias produtivas regionais e articulá-las ao mercado de consumo de massas que vem consolidando-se no Brasil nos últimos anos. Estas são atualizações ainda pendentes e decisivas para que o partido lidere uma coalizão de centro-esquerda que dê continuidade ao projeto de nação iniciado pelo atual governo.

2. O desempenho de PCdoB, PDT e PSB e o futuro do “bloco de esquerda”

O PCdoB sai fortalecido das eleições. Multiplicou por quatro o número de prefeituras que governa - de 10 para 41 - somando um eleitorado de 2,1 milhões de habitantes. Além disto, duplicou sua votação majoritária em relação a 2004, alcançando 1.728.000 votos. No entanto, o partido poderia – e esperava – ter obtido um resultado ainda melhor. A boa projeção pré-eleitoral de algumas de suas candidaturas em diversas capitais (Rio de Janeiro, São Luís, Porto Alegre, Belo Horizonte) sinalizava um resultado político extraordinário. Mas a dificuldade de aglutinação de algumas dessas candidaturas e o distanciamento em relação ao PT em algumas cidades foram decisivos para que o cenário excelente não se concretizasse. Talvez, uma das conclusões mais importantes da atuação dos comunistas nas eleições tenha sido a verificação de que seus melhores resultados se deram em municípios nos quais a relação com o PT é mais profunda, como nos casos de Aracaju e Olinda. Fica, portanto, a dúvida se a aposta na construção do “bloco de esquerda” trouxe, ou não, resultados positivos para o partido em termos eleitorais.

O PDT encerra as eleições municipais como 6° maior partido do país. O partido elegeu 343 prefeitos e 3.509 vereadores. Os trabalhistas obtiveram um crescimento expressivo em relação às eleições de 2004. Ao que tudo indica, o PDT beneficiou-se do excelente nível de aprovação do governo federal. E a mudança de postura do partido no segundo mandato do presidente Lula foi decisiva para o sucesso eleitoral. Em algumas cidades, o PDT foi o principal entrave para a unificação do “bloco de esquerda”, o que nos leva a crer que a opção do partido em compor, ou não, chapas com PSB e PCdoB nestas eleições esteve sempre pautada por conveniências locais. No Rio de Janeiro, por exemplo, o partido insistiu na frágil candidatura de Paulo Ramos, recusando-se a compor a chapa encabeçada por Jandira Feghali do PCdoB, bem melhor posicionada nas pesquisas de intenção de voto. Em outras ocasiões, o PDT impossibilitou a unificação do “bloco” em torno de candidaturas petistas, como foi o caso de Fortaleza, onde PCd B e PSB compuseram a chapa encabeçada pela atual prefeita do PT.

O PSB registrou um saldo extremamente positivo. O partido obteve um crescimento real de 79,77%, elegendo 311 prefeitos. Alem disto, aumentou de 1.879 para 2.964 o número de vereadores eleitos. Este crescimento foi impulsionado pelo resultado do partido no Nordeste, região na qual saiu como 2º maior partido. Conquistou cidades importantes como Belo Horizonte e João Pessoa, muito embora a relação entre Márcio Lacerda (prefeito eleito de BH) e a direção do partido ainda seja um enigma. O PSB cresce, mas não o suficiente para alavancar a candidatura de Ciro Gomes. Pelo contrário, à exceção da região Nordeste, a presença de Ciro nas eleições foi bastante tímida.

O desempenho destes três partidos nos possibilita concluir que: 1. Todos saíram beneficiados por comporem a base de sustentação política do governo Lula, e obtiveram importantes avanços eleitorais; 2. Os três partidos condicionaram a composição de chapas unitárias do “bloco” a seus interesses locais, explicitando seu caráter de frente eminentemente parlamentar e não-orgânica; 3. Os três partidos, apesar das dificuldades iniciais, acabaram realizando importantes composições com o PT em diversos municípios, o que dinamitou a pretensão de alguns dirigentes em isolar o PT através da consolidação do bloco e da candidatura de Ciro Gomes como alternativa, dentro da base governista, à sucessão de 2010; 4. Por fim, Ciro Gomes sai das eleições municipais bem mais enfraquecido do que entrou. O próprio desempenho do “bloco”, com sua evidente dispersão, dificultou enormemente suas pretensões e, não por acaso, o deputado do PSB já sinaliza abertamente sua disposição em compor uma chapa encabeçada por outro partido, na condição de candidato à vice-presidente.

3. Psol caminha para tornar se partido integrado à ordem institucional do país

Um fato positivo destas eleições foi a integração do PSOL – ou, pelo menos, de uma parcela deste partido – ao quadro político nacional, na condição de partido estável, democrático, que ocupa um determinado espaço à esquerda em nosso arranjo partidário, e demonstra um inegável amadurecimento político expresso em sua política de alianças.

Afinal, como bem “denuncia” o PSTU em seu site, dos 25 vereadores eleitos pelo PSOL, 15 obtiveram seus mandatos através de coligações com partidos de esquerda e de centro (ou no linguajar do PSTU, “partidos burgueses”).

O caso de Porto Alegre é emblemático. O PSOL naquela cidade não apenas se coligou com o Partido Verde – PV – como também apresentou nas eleições um programa de governo que dialogou com o conjunto da cidade, inclusive com setores produtivos locais, reposicionando o partido no município. O PSOL transitou de uma postura meramente demarcatória para uma outra, que assume a perspectiva de governar dentro da atual ordem institucional do país, num processo semelhante ao vivenciado pelo PT no inicio da década de oitenta.

Em diversas cidades, o PSOL demonstrou maturidade ao posicionar-se no segundo turno de forma coerente, apoiando candidaturas petistas contra oligarquias regionais representadas, especialmente, pelo PSDB e pelo DEM.

Obviamente, este é um processo inconcluso que ainda será tema de calorosos debates no interior deste partido. No entanto, é forçoso reconhecer a relevância deste movimento em direção à institucionalidade democrática e constitucional do país desta parcela da esquerda. Ganha a democracia e a esquerda ao incorporar em seu espectro eleitoral uma força política com razoável incidência sobre funcionalismo público, que poderá ser um ator de peso no embate eleitoral de 2010. Afinal, o debate acerca do funcionamento e da extensão dos serviços prestados pelo Estado brasileiro deve estar no centro de nossa próxima disputa eleitoral. E o eleitorado mobilizado por uma eventual candidatura do PSOL em 2010 pode ser decisivo no embate com as forças neoliberais. As recentes mobilizações de servidores públicos em Minas e em São Paulo são demonstrações eloqüentes do perfil das administrações tucanas e de sua relação com o funcionalismo público. Este segmento pode ser um pólo importantíssimo de defesa das conquistas obtidas pelos dois mandatos do presidente Lula, que reestruturou e assegurou conquistas para várias categorias do setor público.

Conclusão

Este artigo não teve a pretensão de responder a todo o vasto conjunto de questões que dizem respeito ao futuro da esquerda no Brasil. Pelo contrário, optou-se aqui por uma análise não conclusiva, parcial e, principalmente, sucinta. Limitamo-nos a analisar os resultados mais imediatos da disputa eleitoral de 2008 e apontar possíveis tendências em direção a 2010. Uma análise mais bem elaborada sobre o futuro da esquerda brasileira deveria incluir uma série de temas que não foram abordados aqui, dentre os quais a organização dos movimentos sociais no Brasil.

Mas do ponto de vista da disputa eleitoral e dos movimentos em direção a 2010 – objeto de análise proposto por este artigo – acreditamos ser possível extrair algumas conclusões à luz das informações sistematizadas aqui:

Em primeiro lugar acreditamos que é possível reorganizar o campo democrático popular (PT, PCdoB, PSB, PDT) em torno de um projeto de manutenção e aprofundamento da revolução democrática, criando assim as condições para que este campo apresente uma candidatura única à sucessão presidencial;

A postura do PT será decisiva para a unidade deste campo, seja apresentando e discutindo com seus aliados uma plataforma renovada para o próximo período, como também adotando uma postura não-hegemonista na composição de chapas estaduais, que deve considerar a relevância estratégica desta aliança no plano nacional;

A consolidação desta unidade será um passo decisivo para contrabalançar o fortalecimento do PMDB nas eleições municipais e elevar o debate político acerca da composição de uma chapa de centro-esquerda em 2010. Uma candidatura única da esquerda tornará possível um diálogo qualificado com o centro e a construção de uma aliança programática, consubstanciada por uma plataforma em comum para o país e não por meras trocas fisiológicas de espaços de poder;

A unidade da esquerda será decisiva para a sustentação do governo Lula no cenário de recessão da economia global prevista para o próximo período.

O PT deverá, ainda, trabalhar para que o PSOL integre esta frente nos locais onde isto se torne possível, conferindo mais amplitude e diversidade a este movimento.

Esperamos que as direções do PT e dos demais partidos de esquerda possam considerar estes elementos e conduzir um diálogo construtivo e propositivo nos próximos anos, colocando-se, desta forma, à altura dos imensos desafios que se apresentam diante da esquerda mundial neste início de século.

Tarso Genro é ministro da Justiça
Vinicius Wu é chefe de Gabinete da Secretaria de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O papel da internet na campanha de Barack Obama

ENTREVISTA - PERE-ORIOL COSTA

O papel da internet na campanha de Barack Obama

Para o espanhol Pere-Oriol Costa, especialista em campanhas eleitorais, uso da internet foi uma das peças-chave da vitória de Barack Obama. “Esta campanha”, defende, “redimensionou o papel da internet nas campanhas eleitorais, confirmando sua importância brutal e amplificando muitas coisas que já estavam inventadas, como arrecadar fundos para a campanha e construir uma poderosa rede de voluntários.”

La Vanguardia

Em entrevista ao jornal La Vanguardia, de Barcelona, Pere-Oriol Costa, especialista em campanhas eleitorais, analisa algumas das principais causas do sucesso da campanha eleitoral de Barack Obama. Entre elas, destaca o papel que a internet desempenhou na caminhada do candidato democrata, desde o início da disputa das primárias, quando superou Hillary Clinton.

“Esta campanha”, defende, “redimensionou o papel da internet nas campanhas eleitorais, confirmando sua importância brutal e amplificando muitas coisas que já estavam inventadas, como arrecadar fundos para a campanha e construir uma poderosa rede de voluntários”. Uma parte expressiva do dinheiro da campanha de Obama veio de pequenas contribuições feitas pela internet, o que garantiu maior poder de fogo ao candidato, especialmente na reta final.

Os principais trechos da entrevista:

Quais foram, do ponto de vista da estratégia eleitoral, os fatores-chave para a vitória de Obama?

Pere-Oriol Costa – Nas primárias, Obama percebeu que Hillary Clinton levava dois anos reposicionando-se ao centro, deixando um flanco à esquerda do Partido Democrata. Hillary falava de Deus, da fé e do exército, esperando conseguir um voto mais conservador, mas os blogueiros e a juventude do Partido Democrata a trituraram, acusando-a de trair o partido. Obama aproveitou esse espaço e encontrou eco dentro do Partido Democrata. Ainda que todo seu discurso seja progressista, não representa exatamente um discurso de esquerda ou de direita, mas sim de caráter geracional.

Essa estratégia era destinada a atrair o voto dos jovens?

POC – Buscava atingir mais o Partido Democrata e os jovens e blogueiros o impulsionaram. No voto das primárias, os mais velhos votaram em Hillary e os jovens em Obama. As primeiras análises que nos chegam das eleições presidenciais mostram que cerca de 70% do voto jovem foi para Obama.

Em que sentido a campanha de Obama foi melhor que a de McCain?

POC – A campanha de Obama foi retilínea e os acontecimentos permitiram que ele seguisse uma linha claramente identificável: equiparar McCain a Bush. Com esta linha, ele desgastou a McCain, que seguiu na campanha sofrendo vários tombos.

A mensagem de mudança, de novidade, defendida por Obama, é uma típica estratégia de marketing?

POC – O slogan marca o eixo de toda campanha. Hillary escolheu como eixo sua experiência e Obama percebeu que o fator da vitória residia em explorar o grande sentimento de mudança que existia na sociedade. Enquanto McCain adotou o slogan “o país primeiro”, uma referência à guerra do Iraque, o slogan de Obama permitiu-lhe assumir e tirar vantagens da mudança de sinal na campanha, provocada pela crise financeira. Quando a campanha deixou de estar centrada no Iraque e passou a focalizar o crack financeiro, McCain ficou fora do jogo.

Nas campanhas atuais, é preciso agarrar-se a uma idéia e repeti-la constantemente?

POC – A comunicação política extrai do marketing a idéia da unique selling proposition (algo como proposta de venda única): para que uma idéia sobre um produto encontre eco na opinião pública é preciso dizer uma única coisa, é preciso ter foco. O marketing político utiliza este sistema e tenta enviar uma só mensagem. Se conseguimos englobar tudo o que queremos em uma só mensagem há muito mais chances de que as pessoas recepcionem essa mensagem.

Obama fez isso e McCain não?

POC - Exatamente. Obama utilizou a mensagem da mudança. Yes, we can (Sim, nós podemos). Esta foi a idéia com a qual ele jogou.

Quais foram os erros de McCain?

POC – A escolha de Sarah Palin como número dois foi um erro gravíssimo. McCain representa a ala mais centrista do Partido Republicano e isso era bom para ele porque fazia fronteira com Obama. Mas ele pensou que podia perder votos mais à direita, sucumbiu às pressões e indicou Palin. Ela representa a ala mais fundamentalista do partido, mas, na verdade, a direita mais religiosa teria votado nos republicanos de qualquer forma. Com esse gesto, ele se situou mais à direita e deixou mais espaço para Obama no centro.

Obama também soube aproveitar ao máximo as possibilidades da internet...

POC – Esta campanha redimensionou finalmente a internet dentro dos processos eleitorais. Ela ganhou uma importância brutal e teve amplificadas muitas coisas que já estavam inventadas, como recolher dinheiro e captar voluntários pela rede. Praticamente todo o dinheiro da campanha de Obama chegou por meio de pequenas contribuições via internet.

O que significa isso?

POC – Creio que será transcendente para o mandato de Obama. O fato de ter recolhido a imensa maioria do dinheiro pela internet através de pequenas contribuições converte-o no primeiro presidente que não depende de lobbies, de pressões nem dos interesses daqueles que habitualmente financiam as campanhas. Bush recebeu dinheiro da Exxon Mobil e agora esta empresa está a ponto de perfurar as costas e o Alaska. Recebeu dinheiro das indústrias armamentista e de abastecimento e inventou duas guerras. Recebeu dinheiro das seguradoras e das empresas farmacêuticas e criou uma lei para rebaixar as responsabilidades das mesmas, freando a difusão de um seguro mais barato. Enfim, há uma dependência direta entre quem financiam a campanha e como atua o presidente. Este é um presidente que, em princípio, não deve nada a ninguém.

A internet também pode servir para regenerar o debate político?

POC - Na televisão, é preciso simplificar muito a mensagem e dizer apenas uma coisa, enquanto que a internet, por sua estrutura, permite a recuperação do discurso e do debate político. Para mim, esta campanha começou quando os blogueiros do Partido Democrata passaram a encurralar Hillary. Foi a internet que permitiu isso. Só com a televisão, não teria sido possível. Tem se dito que o efeito da televisão agora é fundamentalmente o debate entre os candidatos. No caso da internet, ainda que seja um debate virtual, o que ocorre é que este debate é muito mais rico.

Os cidadãos também podem participar mais, não?

PCO – A televisão tinha se convertido no cenário onde ocorria a ação política, usurpando, inclusive, o papel do Parlamento. A internet, sem usurpar o papel de ninguém, converteu-se em um novo meio que traz para a política um debate mais rico e um intercâmbio de mensagens.

Tradução: Katarina Peixoto

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Rádios comunitárias e a democratização da mídia

07/12/2006

Rádios comunitárias e a democratização da mídia

No ano que vem se cumprem 50 anos da criação da primeira rádio comunitária na América Latina. Em 1947 foi criada a Rádio Sutatenza, na Colômbia, pela Igreja católica com o objetivo de alfabetizar as comunidades camponesas. Em seguida rádios mineiras, na Bolívia, começariam uma vertente distinta das rádios comunitárias: a de expressar lutas de movimentos sociais por seus direitos civis,

No Brasil as rádios comunitárias têm sido vítimas de repressão, com centenas de rádios fechadas nos últimos anos, em condições que buscam diversificar a expressão cultural e informativa, inclusive pelo fato de que o espectro radio-elétrico tem uma capacidade limitada, sendo patrimônio livre da humanidade, não podendo ser apropriado privadamente. Segundo a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos: “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Este direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informação e idéias de todo tipo.” Trata-se de um direito de todas as pessoas e não apenas de jornalistas ou proprietários de meios de difusão.

Quando 26 rádios foram fechadas pouco tempo antes das eleições, Joaquim Carvalho, do departamento jurídico da Associação Brasileira de Radiodifusão afirmou que esse procedimento “faz parte de uma ofensiva de fechamento de emissoras que apoiavam a reeleição de Lula, perpetrada por gerentes regionais da Anatel que ainda seriam da época do governo de FHC”. Os fechamentos de emissoras não seriam ordenados pela presidência da República, mas pelo organismo de controle, o que não isenta a presidência de responsabilidades, ainda mais que esses fechamentos aumentaram durante o primeiro governo Lula.

Existe no Brasil uma lei aprovada em 1998 regulando a radiodifusão comunitária. No entanto o Associação Mundial de Rádios Comunitárias apresentou um documento à Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando que: “Existem para as emissoras não comerciais discriminações explicitas em relação à utilização de um único canal para a totalidade do país, o que fere qualquer vocação pluralista em cada área coberta. Como isso não bastasse em termos de discriminação, sua potência é muito limitada, assim como sua área de cobertura, que não passa de uma área de um quilômetro. Isto se acentua porque elas não podem produzir recursos próprios, o que representa ser penalizadas por ter publicidade.”

Na campanha eleitoral se mencionou a disposição do governo de promover um projeto com o objetivo de “democratizar os meios de comunicação no Brasil”, mas existe o temor de que na realidade possam trazer ainda mais obstáculos às rádios comunitárias. Quando na realidade a defesa e promoção destas é elemento essencial no processo de democratização da mídia brasileira, multiplicando as vozes que se sentem sufocadas pelos monopólios privados da comunicação.

Nas últimas eleições ficou claro que a grande maioria dos brasileiros discorda das orientações dessa mídia monopolista, votando no candidato quase unanimemente condenado por elas. É preciso que essas vozes possam se expressar, para expandir e consolidar a opinião pública alternativa, majoritária no Brasil de hoje.





Postado por Emir Sader às 16:43