O Claro e o explícito
"Sou mãe, sou mulher". Ouvi essa frase diversas vezes pronunciada por Micarla de Sousa, candidata do PV à prefeitura de Natal. O que ela significa? Aparentemente seu sentido está claro, evidente. Ela diz o que Micarla é uma mulher, casada, mãe de dois filhos. Mas, enunciada no contexto de uma eleição de forma tão insistente, essa frase não pode ser entendida na simplicidade semântica de seus termos.
O estranho é que ela não era a única candidata a prefeito. Sua concorrente direta, a deputada Fátima Bezerra, apesar de não ser mãe, é mulher. O que significava então a frase recorrente da candidata? Qual o sentido de insinuar essas duas condições como "diferenciais" de sua campanha? Ao afirmar constantemente que é "mãe" e que é "mulher" a candidata Micarla estava conectando o conceito da maternidade ao conceito de gênero e marcando um ponto de diferença, uma particularidade de sua condição que destoava daqueles que concorriam contra ela à prefeitura de Natal. Era como se ela estivesse o tempo todo "provando" (se é que isso é passível de qualquer tipo de prova ou de demonstração) sua condição sexual a partir de sua maternidade.
Não é preciso ser nenhum gênio da publicidade para saber que a frase repetida à exaustão pela candidata do PV tinha um endereço certo. Seu objetivo político era muito claro e seus efeitos foram sentidos em diversos bairros da cidade. Essa frase reforçava, na boca do povo de Natal, o preconceito em relação a sexualidade da deputada Fátima Bezerra do PT. Se a maternidade de Micarla fosse a prova da sua condição sexual, a não maternidade de Fátima colocava em questão a sexualidade da candidata do PT. Esse era o discurso subliminar da misteriosa frase repetida nos programas eleitorais de modo aparentemente despretensioso.
Eu particularmente, quando voto, não estou nem um pouco interessado em saber como o meu candidato pratica a sua sexualidade. Se ele é hetero, homo, bi, poli ou pan sexual (excluindo a pedofilia ou o estupro, para mim não há delito em fazer ou deixar de fazer sexo com quem ou o quê você quiser. Cada um que cuide da sua vida e faça com ela o que achar melhor). Nunca me interessou saber o que meu candidato fazia na cama até porque eu concordo com Nelson Rodrigues, o mago da crônica jornalista brasileira, produtor de algumas das frases mais geniais que eu já tive oportunidade de ler. "Se nós soubéssemos da intimidade sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria na rua". No entanto, essa minha despreocupação não pareceu ser a regra entre os meus conterrâneos nessa eleição.
Entre o normal e o natural, entre o convencional e o proibido, entre a tolerância e o preconceito, algo deixou de ser dito nessa campanha. Provavelmente na história política do Brasil muitos governadores, prefeitos, deputados e senadores tiveram que esconder suas preferências sexuais para poder passar no teste do preconceito popular. Imagino que muita gente casou, teve filhos, cumpriu todos os ritos matrimoniais e sociais exigidos pela tradicional família potiguar (sertaneja, semita, conservadora) para que, diante do seu eleitor e da sua eleitora, não sobrasse nenhuma dúvida de que suas práticas sexuais corriam em pura conformidade com aquilo que o entendimento padrão considera "normal". Muita gente mutilou o próprio desejo, rasgou a própria vontade e escondeu a própria alma para tolher algum suposto "desvio", alguma pulsão, algum trejeito que pudesse "denunciar" sua condição.
Na política brasileira é absolutamente perdoado o dissimulado. Aquele que se esconde é aceito. Mas, entre o dissimulado e o assumido há o explícito. Nem tudo que é explícito, ou aparentemente evidente é claro. Provavelmente provocação que a campanha de Micarla lançou contra a de Fátima poderia ter gerado um fato histórico na política do Rio Grande do Norte. No silêncio de uma e na insinuação da outra se perdeu a opção pela clareza. Entre aquilo que é explícito e aquilo que é insinuado, perdeu-se a chance de pôr as cartas na mesa e discutir, sem rodeios nem dissimulações uma questão central de nosso tempo e de nossa cultura: o que significa ser mulher? Qual o peso da opção sexual de um candidato em uma eleição? Até quando as pessoas serão divididas, menosprezadas, ridicularizadas e classificadas em função da sua religião, da sua raça, da sua cor, condição social ou do tipo de afeto que elas cultivam? Faltou o entendimento central presente no brasão nacional indiano, e que eu gosto de repetir para mim mesmo a exaustão: só a verdade vence.
Pablo Capistrano.
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